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22 de dez de 2009

RECORDAÇÕES


Lúcio estacionou o carro em frente ao número 54 da Rua Leopoldo. Olhou mais uma vez o papel. As mãos suavam .O suor escorria pela testa. Parecia um adolescente tímido. Largou o volante e esfregou uma mão na outra. “Então era naquela Vila que Denise morava? Wilson garantiu que sim“.

A noite estrelada o convidou às recordações. Lembrou-se de Denise. Do sorriso meigo. Da boca carnuda. Dos cabelos sedosos. Conheceram-se na adolescência. Moravam no mesmo prédio. Brincavam de pique-bandeira, pique-esconde. Adoravam jogos de estratégia. Aos 16 anos começaram a namorar. A primeira namorada. Primeira mulher. Amavam-se às escondidas pelas escadas do prédio, suando e cheios de pressa, com medo de serem descobertos pelos vizinhos.

O namoro terminou quando Denise se mudou para outro bairro. Encontraram-se ainda algumas vezes na praia. Depois que entraram para a faculdade, nunca mais se viram. A última vez que soube de Denise, ela formara-se professora de Literatura e estava casada com um dentista.


Ele casou-se com Nadir. Tiveram três filhos. Montou um escritório de contabilidade . Vivia uma rotina tranquila. A vida estruturada desmoronou com o câncer da esposa. Dois anos de sofrimento. Ela morreu nos braços dele. No velório de Nadir, pensou em Denise. “Como será que ela está? Teve filhos? Separou? Ama o marido?“

Durante um ano tentou localizá-la através da internet. Uma maneira de se distrair e suportar a perda da esposa . Não teve sucesso. Por coincidência do destino, encontrou Wilson numa festinha de criança. Quando adolescentes, os três moraram no mesmo prédio. Perguntou se ele tinha notícias de Denise. Dois anos antes vira-a no Centro da Cidade. Contou que ela morava na mesma Vila do tio dele. Estava casada mas não tinha filhos.

Lúcio pediu o endereço. “O que fazia?“ – pensou. “Ela estava casada. Não tinha o direito de estragar a felicidade da ex-namorada. Mas a curiosidade era maior”

O endereço de Denise deslizou por entre os seus dedos durante duas semanas. Agora estava diante da casa dela. Queria ver Denise, mesmo de longe. “Será que ela o reconheceria? Lembraria dos bons momentos depois de vinte e cinco anos? E se ele se aproximasse e ela o rejeitasse? Era melhor não mexer no passado”.

Saiu do carro impulsivamente. Amassou o papel. Jogou na calçada, atravessou a rua e tocou o interfone. Número 54, casa 8. “Precisava ver Denise. Tinha urgência. E se o marido atendesse?”


Tocou novamente. Um morador abriu a porta e fez sinal para ele entrar. Agradeceu . Preferiu continuar na calçada. Finalmente escutou uma voz do outro lado. Voz de homem. “ O marido dela . E agora? O que eu digo?” – pensou.

A voz insistiu, irritada:

- “ Alô?! Quem é? Não vai responder?’”

Entrou no carro sentindo-se culpado. Pensou em Nadir. “O que ele fazia ali? Precisava livrar-se das lembranças. Quem sabe viajar para a Bahia? Aceitaria o desafio de abrir um escritório em outro lugar . Melhor assim”.

Denise apareceu na sala cheia de embrulhos. Olhou para o cunhado com ar de interrogação:

- “Quem era?’
- Ninguém.
- Ninguém?
- Não responderam. Devem ter tocado errado.


Denise esticou os braços:

- Pronto. Aqui estão as roupas do seu irmão. Dê para uma casa de caridade. É muito duro guardar tudo isso . Nem parece, né? Seis meses que ele se foi .


Leandro abraçou Denise:

- Força, cunhada. Domingo, eu, Zoraide e as crianças estaremos aqui para almoçar com você.

Sorriu desanimada. Levou Leandro até a porta. Despediram-se. Entrou em casa melancólica. Voltou para o quarto. Abriu uma caixinha que guardava desde os tempos da adolescência. Pegou uma foto de Lúcio: “Por que ainda tenho essa fotografia comigo?” Rasgou. Jogou na lixeira. e preparou-e para dormir. “No fundo – pensou – tinha certeza que nunca mais o veria“.

Adormeceu.

Sonhou que dançava uma valsa . O par não tinha rosto. Sabia que era Lúcio.

14 de dez de 2009

COMPRAS DE NATAL



Ernestina arrumou a mesa, acordou as crianças e chamou o marido:

- Abílio, levanta e vai tomar café para irmos ao shopping.
-Que horas são?
- Nove .
- Só? Acordo cedo a semana inteira, hoje tenho direito de ficar na cama até mais tarde.

Voltou a se cobrir e fechou os olhos. Ernestina sacudiu o marido contrariada:

- É melhor irmos cedo, mais tarde o shopping vai ficar cheio.
- Não dá para ir sozinha com as crianças? Eu pego vocês na hora da saída.
- Nada disso. Ano passado eu dei uma camiseta que não coube no seu pai e sua mãe encheu meus ouvidos. Lembra? Esse ano você vai comigo.

Abílio coçou a cabeça e se espreguiçou. Tomou café de mau-humor. Entrou na garagem mais relaxado, porém voltou a ficar mal-humorado quando saíram com o carro e Ernestina deu um gritinho:

- Estaciona rapidinho em frente ao prédio. Vou lá em cima.
- Pra quê? Tá com vontade de ir ao banheiro?
- Esqueci a lista dos presentes.
- Vamos sem lista. Se eu ficar aqui parado, vou ser multado.

Ernestina não deu ouvidos ao marido e saiu do carro batendo a porta. Voltou dez minutos depois. Seguiram para o shopping em silêncio. Abílio entrou na praça de alimentação resmungando:

- Vou ficar por aqui tomando um chopinho enquanto você faz as compras. O shopping tá muito cheio.
- Não senhor, você vai comprar o presente do seu pai comigo.

O homem revirou os olhos contrariado. Entraram numa loja de departamento e foram direto para a seção de artigos masculinos. Ernestina se distraiu procurando presentes. O marido se afastou com as crianças. Para chamar a atenção dele , ela gritou:

- Já escolheu o que vai dar de presente para o seu pai?

Ele tentou ser discreto:
- Estou olhando.
- Que tal cueca ? – falou alterada, perto do cesto de cuecas em promoção.

Abílio concordou com a cabeça, sem graça. Ela continuou:
- Média ou grande?

Pegou três cuecas coloridas e balançou :
- Estão boas?

Ele apressou os passos e se aproximou da esposa :
- Não dá para ser mais discreta e parar de berrar no meio da loja?
-Então fica perto de mim. Vai ou não vai levar?
- Vou. Manda embrulhar pra presente.
- E que tal essa para você?

Pegou uma cueca preta, ousada e mostrou ao marido :
- Bem que você podia usar uma assim, né?
- Deixa isso aí. Cueca ridícula. Isso é coisa de gay.
- Bobão, preconceituoso. Não se garante, não é?

Discretamente Ernestina colocou a cueca no interior da cesta. Ainda ficaram mais de uma hora na loja escolhendo presentes . Quando acabaram, o marido determinou:

- Agora vamos almoçar. Depois você fica com as crianças e faz o resto das compras, enquanto eu vou dar um pulo na oficina para dar uma olhada no carro.
- O que é que tem o carro?
- Problemas no carburador.


Depois do almoço, Abílio se despediu. Ernestina foi comprar o resto dos presentes e as crianças ficaram numa Lan House. Marcaram de se encontrar ás sete, no estacionamento.Assim que entrou no carro, Abílio pegou o celular e discou um número.

- Tá em casa? Tô indo praí.

Dez minutos depois, estacionou e saiu apressado em direção a um prédio de quatro andares. Colocou a chave no portão de ferro, entrou e parou no segundo andar. Tocou a campanhia do 201. Uma mulher magra, com o cabelo pintado de loiro com tinta vencida, atendeu a porta de calcinha e sutiã, com um copo de cerveja na mão. Ela ficou feliz ao vê-lo:

- Que milagre aparecer aqui num sábado?!
- Minha mulher está fazendo compras com meus filhos. Temos duas horas.

Quando voltou para o shopping, Ernestina e as crianças já o esperavam impacientes. Com a mão na cintura, ela reclamou:

- Por que você deixou seu celular desligado?
- Deixei ? Nem reparei. – respondeu cinicamente.

O domingo se arrastou.

Na segunda-feira, Abílio saiu cedo para trabalhar. Ernestina levou as crianças para ficarem com a mãe e voltou para casa decidida a faltar ao trabalho. Ligou para o chefe e inventou uma doença. Depois pegou o caderninho e teclou um número:

- Arizinho, sua mãe está em casa?

Diante da resposta negativa, Ernestina disse que precisava de alguém para ajudá-la a arrastar os móveis do quarto. Solícito, ele se ofereceu. Arizinho é um rapaz de 19 anos, filho da vizinha do quinto andar e Ernestina sempre o cobiçou em silêncio. Ele é moreno, alto, pratica esportes e tem a inocência do olhar de um jovem recém-saído da adolescência. Orgulho da mãe e objeto do desejo das vizinhas carentes. Assim que Arizinho chegou, Ernestina o pegou pelo braço e o levou até o quarto. Com ar misterioso, mostrou um embrulho e ordenou:

- Veste.

Arizinho obedeceu e vestiu a cueca. Ernestina colocou uma música, cruzou as pernas e sorriu ansiosa por um momento de prazer:
- Agora desfila pra mim!


O filho da vizinha arriscou uma dança e passou a rebolar desnecessariamente. Empolgado, começou a dar gritinhos histéricos. Ernestina estranhou :

- Quê isso Arizinho? Deixa de brincadeira e faz um desfile sensual pra mim .
- Então não sabe? Sou gay e faço shows eróticos na boate em que eu trabalho. Meus shows fazem o maior sucesso.
- Sua mãe sabe?
- E precisa ? Quem cuida da minha vida sou eu.

Envergonhada, Ernestina pediu desculpas pelo equívoco. Balançando os braços, Arizinho agradeceu o presente, se vestiu e saiu jogando beijinho. Decepcionada, Ernestina sentiu um torpor percorrendo-lhe o corpo. Tinha a impressão de que os vizinhos, em poucos segundos, tomariam conhecimento do vexame que acabara de passar. Fungando, enxugou as lágrimas, pegou uma escada e subiu no armário do quarto. Alcançou um embrulho e voltou pra sala. Abriu o pacote e começou a arrrumar os enfeites natalinos. Sorrindo esperançosa, olhou para a estrela em cima da Árvore de Natal tentando encontrar na alma a criança que havia perdido.

7 de dez de 2009

A MULHER INSATISFEITA



Tereza colocou o filho de dois anos para dormir e foi até o quarto, abriu o armário, pegou a camisola nova e se trancou no banheiro. Tomou um banho demorado, espalhou creme pelo corpo, se vestiu, penteou os cabelos e passou uma colônia de rosas na nuca. Saiu do banheiro esbanjando charme. Rubens esperava na cama.

- Como você está cheirosa ! Vem cá, deixa eu sentir esse cheiro gostoso.

Sorrindo, entrou nos braços do marido. Cinco minutos depois Rubens adormeceu. Tereza olhou para o teto frustrada. Estavam juntos há oito anos. Na época do namoro e nos primeiros anos de casados, o sexo era quente. Depois que ela engravidou, sem explicação, o marido perdeu o desejo. Quando Tereza cobrava sexo, ele desconversava.

Num sábado, quando Rubens chegou em casa bêbado, depois do aniversário do sobrinho mais velho, recusou-se a transar com Tereza. Enraivecida, ela jogou um livro em cima dele e o acusou de infidelidade. Pressionado, Rubens confessou, com a boca mole :

- Não sinto mais tesão por você. Você agora não é mais mulher, é mãe do meu filho.

Na tentativa de salvar o casamento, Tereza procurou uma terapeuta de casal. Rubens não compareceu ás sessões. Ela fez garrafada, simpatia e até promessa. Tudo inútil. Intrigada, procurou uma cartomante.
- Seu marido tem uma amante.
- Então essa coisa de que sou mãe do filho dele é desculpa?
- É.
- O que faço?
- Gosta dele?
- Gosto de sexo e ele é meu marido.
- Procure inovar e se enfeitar na hora da intimidade.

Tereza comprou calcinha e camisola novas. Não adiantou. Frustrada, desabafou com a irmã:
- Meu casamento está por um fio. Uma cartomante me falou que Rubens tem outra.
- Será?
- Ele não me procura mais e quando forço a barra parece que me faz um favor.
- Será que ele desconfia de você?
- Nunca me acusou de nada. A desculpa dele é outra.
- Qual?
- Diz que depois que o Juninho nasceu, não sente mais desejo por mim.
- Quer continuar casada?
- Claro! Ficar sem marido? Jamais. Já diz o ditado, ruim com ele , pior sem ele.
- Então coloca um investigador atrás do cachorrão.

Tereza contratou um detetive. Um mês depois, ele deu-lhe a notícia com um sorriso de canto de boca:

- Seu marido é um virtuoso. Vai de casa para o trabalho e do trabalho para a casa.
- Não é possível. Mentira?!
- Não encontramos nada. Fizemos escuta telefônica. Tiramos fotos. Nada.
- Nenhuma suspeita?
- Nenhuma. Seu marido é fiel . Um pai de família exemplar.

Saiu do escritório confusa. Será que ele estava com problema na próstrata? Desconfiava dela? Ou se contentava com sexo virtual, já que ficava muito tempo no computador de madrugada? Não se conformaria com qualquer desculpa. Gostava de sexo. Faria mais uma tentativa. Numa quarta-feira, depois de colocar o filho pra dormir, montou um cenário romântico. Acendeu velas, incensos e espalhou pétalas de rosa pela sala. O marido, que assistia TV, reclamou:

- Tô vendo meu futebol e você pra lá e pra cá na frente da televisão. Esse cheiro de incenso tá me sufocando. E essas velas acesas? Quer colocar fogo na casa?

Desapontada, se trancou no quarto emburrada. Da cama ainda ouviu o marido gritar:

- Golllllllll! Dá-lhe Mengão!!

A raiva incendiou-lhe o peito. Não gostava de rejeição. Lembrava da infância. Tinha cinco anos quando o pai abandonou a mãe. Decidiu mexer com os brios do marido. Talvez desse resultado. O que não podia – pensou – era continuar casada com um homem sexualmente distante. No final de semana, na hora do jantar, fez nova tentativa, Rubens reagiu, impaciente:

- De novo? Não cansa? Pode dar um tempo pra mim?
-Que tempo você quer?
- Você parece uma tarada. Caramba, você é a mãe do meu filho, vê se entende!
- Então nunca mais vamos fazer sexo? NUNCA MAIS?
- Sinto Tereza, é mais forte do que eu.
- E se eu fosse uma puta?
- Você não é uma puta. Você é mãe do meu filho!

Com o peito apertado , ela gritou , jogando o prato no chão :
- O JUNINHO NÃO É SEU FILHO!
- O QUÊ?
- RUBENS MACHADO JUNIOR NÃO É SEU FILHO!

Com a cabeça girando, Rubens jogou a tigela de arroz contra a parede. Com o sangue subindo-lhe às faces, pegou a mulher pelo braço e foi empurrando até a cama :

- Puta! Sua puta mentirosa.
- Não é mentira. SEU FILHO NÃO È SEU FILHO.

Transaram selvagemente. Tereza adormeceu. Rubens não conseguiu pregar o olho. Foi até a geladeira e bebeu uma cerveja pelo gargalo. Bebeu mais outra. De madrugada, bêbado, acordou a esposa :

- Me diz : Quem é o pai do Juninho? QUEM?
- Hã? O quê?
- Qem é o pai do Juninho?!
- Deixa isso pra lá. Esquece. Vem dormir.
- Quem é? Preciso saber .
- É o seu irmão Geraldo! Ele é o pai do Juninho.

Com o orgulho doendo, sentiu a vida descer pelo corpo. Abriu o armário, vestiu uma camisa e foi até a gaveta . Remexeu, pegou a chave do carro e saiu batendo a porta. Tereza escutou quando o marido saiu cantando pneu. Olhou o relógio. Cinco da manhã.

O céu clareava, quando Rubens tocou a campanhia na casa do irmão. Regina, esposa de Geraldo, acordou o marido, assustada:

- Quem será a essa hora?

Ele se levantou sonolento. Espiou pelo olho mágico e abriu a porta nervoso:
- O que houve? Aconteceu alguma coisa com o Juninho?

Mudo, Rubens puxou a pistola e deu dois tiros no peito do irmão. Em seguida, colocou a arma na cabeça e atirou.

Foram velados juntos. Durante a cerimônia fúnebre, a família e os amigos comentavam a tragédia, chocados. Sentada perto dos caixões, Tereza fazia cafuné em Juninho enquanto trocava olhares discretos com Ricardinho, um jovem de vinte anos, filho do irmão mais velho dos falecidos.

Nota de rodapé : Aguardem.  Em 2010 meu livro de CONTOS pela Multifoco. 40 contos não publicados no blog.

29 de nov de 2009

SURRA DE AMOR NÃO DÓI

Waldete descascava a cebola para o molho do cachorro-quente do aniversário do filho quando a irmã apareceu.


- Bom dia....bom dia.... cheguei! Vim lhe ajudar a preparar as comidas para a festa logo mais.
- Bom você chegar, Marlene. Falta fazer muita coisa. Aproveita e vai enrolando a massa dos pasteizinhos..... e olha que já adiantei muita coisa durante a semana.

- O Osvaldino tá aí?
- Saiu com o irmão. Foram comprar mais cerveja. Por quê?
- E o aniversariante?
- Tá na rua brincando com os coleguinhas. Não viu ele não?
- Não vi não. Eu tenho uma coisa chata pra lhe dizer Waldete.


Waldete nem percebeu que o tom de voz da irmã mudou e continou a cortar a cebola.
- Fala. Tá precisando de dinheiro emprestado? – brincou.
- Você não pediu para eu investigar se o Osvaldino voltou a sair com outras mulheres?

Imadiatamente Waldete se virou para a irmã.
- O que você descobriu?
- Vira essa faca pra lá, Waldete. Cruzes! Não é para mim que você tem que apontar esse troço .
- Tá , me diz, anda, o que você descobriu?
- Ele voltou a sair com outras. Tem um monte de rolo. Os colegas do trabalho colocaram até um apelido nele: bico doce.
- Bico o quê?
- Bico doce. Enrola a mulherada, conta um monte de vantagens, diz até que é solteiro. Seu marido é um cafajeste.


Waldete sabia da fama de conquistador do marido. Porém pensou que era coisa do passado. Revoltada com a notícia, colocou a mão na cintura e apertou os lábios de nervoso.

- Bico doce? Ele me paga. Já conversamos sobre isso. Disse que não ia mais me trair. Acredita que chorou? Fiquei com pena. Perdoei e agora volta a aprontar?!
- E você acreditou? Uma vez infiel, sempre infiel. Mas olha lá o que você vai fazer. Hoje é aniversário do seu filho. Não vai estragar a festa do garoto.
- Deixa comigo. Encerra o assunto, eles estão chegando.


Waldete ajudou a guardar as bebidas no freezer e não comentou mais sobre o assunto da traição. Porém, cada vez que olhava o marido, uma raiva lhe subia a cabeça. Tinha vontade de socar Osvaldino. Os preparativos para a festinha, em comemoração aos 8 anos de Marquinho, único filho do casal, seguiram. De noite, depois de fritar os salgados, Waldete estava exausta e com o coração apertado. Comentou com a irmã:

- Se eu pudesse ia dormir agora. Além de cansada, não consigo olhar para a cara de cocker spanish do Osvaldino.
- Ânimo! A festa está só começando. Daqui a pouco nossa mãe chega, suas cunhadas, sogra, alguns colegas de trabalho do seu marido. Tem que ficar bem bonita. Se mostrar superior.
-Tá bom, tá bom. Deixa eu colocar uma máscara e fingir que não sei de nada.


Se arrumou de má vontade. Pensava na traição de Osvaldino. Ele jurara que nunca mais ia sair com outra. Dessa vez – pensou – daria um jeito. Ele merecia uma lição. Cansou de fazer vista grossa para as sacanagens do marido. Se encheu de coragem e foi receber a família. A irmã e a vizinha ajudavam a servir os salgadinhos. A mãe de Waldete reclamava:

- Minha filha, esse croquete está muito massudo. Não foi assim que eu lhe ensinei.
- Da próxima vez a senhora chega cedo para ajudar, tá bom?


Irritada, Waldete foi até Osvaldino e arrancou-lhe o copo de cerveja da mão.

- Quem vai beber agora sou eu!
- Tá doida? Nunca foi de beber.
- Mas hoje vou beber para comemorar o aniversário do NOSSO filho.


Exagerou na bebida. A irmã se preocupou. Waldete falava enrolado:

- Daqui a pouco tá na hora de partir o bolo...e...
- Waldete, me dá esse copo aqui, já bebeu demais.
-Me deixa beber Marlene, hoje é aniversário do meu filho.


E olhava para o marido. que conversava empolgado com os irmãos, de olho nas pernas da vizinha. O olhar de Osvaldino parecia um radar. E foi na hora de partir o bolo que a confusão começou.

- Osvaldino fica aqui do meu lado, a gente vai cantar parabéns para o Marquinho agora.
- Não tem necessidade. Fico aqui mesmo.


Osvaldino – Waldete percebeu – queria ficar numa posição estratégica para olhar melhor as pernas da vizinha. O sangue foi subindo.

- Osvaldino, já falei , quero você aqui do MEU lado.
- Não vou. Tá pensando que vai mandar em mim? Vou ficar aqui.
- É? Vai? Então depois não diz que não avisei.


Na frente dos convidados, Waldete avançou pra cima do marido. Tirou o tamanco do pé direito – um tamanco de madeira, pesado, com um salto enorme – e começou a bater em Osvaldino. Surra de tamanco.

- Isso é para você aprender a me respeitar, bico doce. Agora vai apanhar na frente de todo mundo. Quero ver essa fama de dom juan durar.


Os irmãos tentaram tirar Waldete de cima de Osvaldino. As esposas não deixaram.
- Ele merece apanhar.Deixa. Todo mundo conhece a fama do Osvaldino.

A mãe de Osvaldino gritava :
- Tirem essa doida de cima do meu filho! Ele é homem!


Waldete batia mais no marido.
- E a senhora sai daqui. Não se mete. Quem se meter, apanha também. E de tamanco.


Osvaldino gritava:
- Pára, tá doendo. Não bate aí. Machuca.


A vizinha paquerada, ria.
- Que vexame! Coitado! Que vexame!

Os colegas de trabalho davam risadinhas, se entreolhando. Uma surra histórica na carreira de conquistador de Osvaldino. Tinha até torcida das cunhadas. Não sabiam porque, mas sentiram-se vingadas.:
- Se me trair faço o mesmo com você!


Durante um mês ficou com dores pelo corpo. Foi o comentário principal no trabalho e na vizinhança. Com medo de outra surra, tornou-se um homem fiel. Se Waldete soubesse que surtiria efeito, o teria surrado há mais tempo. Mesmo assim não relaxou. Sempre que saíam, ela o prevenia:
- Se olhar para o lado, leva outra surra! E de tamanco! Comprei um novo, ótimo.

Osvaldino, com medo, nem respirava.

23 de nov de 2009

MARIA CRISTINA

Sábado de sol. Maria Cristina se levantou da cama, fez café e chamou o marido:


- Osório, vamos à praia?
- Que horas são?
- Quase nove.
- Preguiça. E mesmo assim, dia de sábado, a praia está cheia.


Virou-se para o lado, resmungou alguma coisa e voltou a dormir. Maria Cristina se encaminhou para a sala reclamando baixo:
- Eu me casei com um merda. Não gosta de nada.

Abriu a janela e olhou para a rua com o olhar distante. Sônia, vizinha da casa em frente, lhe fez o convite:
- Vem até aqui . Hoje fiz um super café da manhã. Com direito ao bolo que você gosta!


Aceitou. Empolgou-se ao ver uma farta mesa preparada cuidadosamente pela vizinha. Sônia contou o motivo da comemoração:

_ Lembra do Julinho? Meu menino?
- Claro. A última vez que eu o vi estava com 13 anos.
- Pois é. Foi morar com o pai em Sergipe, mas voltou para ficar definitivamente comigo. Meu garoto está com 19 anos. Você não vai reconhecer.

Julinho apareceu na sala cinco minutos depois. Maria Cristina impressionou-se com a beleza do rapaz. O menino franzino transformara-se num belo homem. Alto. Forte. Cabelos pretos ondulados e olhos brilhantes, cheios de juventude. A mulher, carente de carinho, sentiu uma pontada no estômago ao lembrar do marido que dormia em casa: “Horrível, barrigudo e preguiçoso”. Voltou à realidade com Julinho abraçando-a.

- Dona Maria Cristina, lembro da senhora. A senhora brigava tanto comigo porque minha bola de futebol ás vezes ia parar dentro da sua varanda.

Riram das lembranças. Maria Cristina voltou pra casa meio-dia. Osório reclamou impaciente:
- Posso saber onde voce se enfiou?
- Interessa?
- Claro. Quero almoçar e descansar, para mais tarde ir ao Maracanã. Hoje tem jogão de bola.
- Ah é?! Pois eu tenho uma novidade pra você.


Olhou pra esposa curioso. Mordendo os lábios, Maria Cristina falou com voz afetada:

- Hoje não tem almoço.
- Quê isso? A gente almoça fora a semana toda, hoje quero comer da sua comidinha.
- Vai ficar querendo. Eu vou para o quarto ler e dormir.
- Não vai almoçar?
- Não. Tomei um farto café da manhã na casa da Sônia. O filho dela voltou pra casa.
- O garoto voltou é? O pai deixou?
- Voltou para morar com ela..
- Egoísta. Não trouxe um pedaço de bolo pra mim?
- Você não merece.

Osório tomou banho e saiu. Almoçou um prato feito no botequim da esquina. A semana foi entediante para Maria Cristina. De casa para o trabalho, do trabalho pra casa. Passou a colorir a vida com sonhos eróticos. O protagonista? Julinho. Imagina-se passeando com ele pelas areias da praia de Copacabana . Terminava o passeio assistindo o pôr-do-sol no Arpoador. Aos 35 anos, sentia-se uma mulher sem motivação para viver. Lamentava o casamento falido, sem filhos, com um marido frio e distante.

Julinho tornou-se uma válvula de escape. Uma ilusão que a incentivava a acordar todos os dias. Numa sexta-feira, ela chegou mais cedo do trabalho, e encontrou o rapaz voltando da faculdade. Convidou-o para um café. Conversaram na sala. Maria Cristina empolgou-se acreditando que o sonho poderia se transformar em realidade. “Loucura?” – ela pensou – “Não, loucura é continuar casada com Osório“ – justificou.


Osório chegou do trabalho e encontrou Julinho na sala. Entrou na conversa. O rapaz passou a visitar o casal quase todos os dias. Quando Julinho saia, Osório comentava com a esposa:
- Que rapaz gentil! Sabe que não temos filhos e resolveu nos fazer companhia!


Maria Cristina não gostou do comentário e devolveu:
- Ele não tem idade para ser meu filho. Nunca seria mãe aos 16 anos.
- Não falei por mal. Você leva tudo a sério demais. Como você é mal-humorada!
- Eu?

Osório fugiu da discussão aumentando o som da televisão. Antes de dormir, falou com a esposa:
- Amanhã saio cedo de casa. Vou fazer um extra no trabalho.

Maria Cristina gostou. Seria uma ótima oportunidade para conversar a sós com Julinho. Não teve sorte. Sônia avisou que o filho saiu cedo com amigos. Carente, Maria Cristina insinuava-se para Julinho. Ele fingia não entender. Ela insistia. Ele fugia. Prometeu não desistir. Daria um tempo.

Resolveu passar um final de semana na casa da mãe. Longe do marido, assediaria Julinho por telefone. Despediu-se de Osório dizendo que voltaria segunda-feira depois do trabalho. Ligou no sábado para o celular do rapaz. Desligado. Domingo a mesma coisa. Desistiu da estratégia. Voltou para casa no domingo à noite, desolada. Passava das onze quando enfiou a chave na fechadura. Silêncio. Maria Cristina pensou: “A pústula do Osório deve estar roncando”.

Do corredor percebeu que a luz do abajur do quarto estava acesa. Andou em silêncio. Não queria acordar o marido. O coração quase parou quando entrou no quarto. Osório e Julinho estavam na cama aos amassos. A respiração parou. Pensou em gritar. Avançar nos dois. Teve uma idéia . O desespero a encorajou. Tirou várias fotos no celular Agiria rápido. Foi até o quarto ao lado, abriu o armário e pegou dinheiro no bolso da calça do marido. Em seguida, pegou os talões de cheque de Osório. Voltou para a casa da mãe.

Usou o computador do quarto do irmão. Mandou as fotos para todos os e-mails conhecidos. Espalhou pela internet. De madrugada, treinou a assinatura de Osório.

Pela manhã, despediu-se da mãe. Falsificou a assinatura do marido e deixou apenas dez reais na conta dele . Raspou a conta conjunta. Estourou os limites dos cartões adicionais comprando roupas e sapatos. Passou o dinheiro da poupança que tinha com Osório para uma conta particular. Ligou para o trabalho e xingou o chefe. Desligou aliviada.

Viajou sem destino.

16 de nov de 2009

SEGREDO DE FAMÍLIA



Final de expediente. Horácio bebia com os amigos num bar no Centro da Cidade quando olhou para a mesa perto do banheiro e engoliu em seco: “O que a filha da puta da Ritinha tá fazendo aqui com outro homem? “. Deixou os amigos conversando e se aproximou da mesa em que estava a esposa. Segurou-a pelo braço:

- Quem é esse cara? Tá pensando que eu sou o quê? Me traindo na minha cara?

O acompanhante da mulher se levantou aborrecido.

- Qual é a sua? Quem é você?
- Sou o marido dela .
- Marido? Não sabia que você era casada!

A mulher se levantou colocando a mão na cintura.
- Que história é essa de marido? Nunca vi você na minha vida!
- O que é isso Ritinha? Tá me estranhando?
- Quem está me estranhando é o senhor. Nunca o vi. Por favor, retire-se ou chamo o segurança.

O garçom se aproximou.

- Algum problema?

Para evitar escândalos, principalmente na frente dos colegas de trabalho, Horácio disfarçou:

- Não é nada. É apenas uma dúvida que estou tirando.

A mulher mexeu nos cabelos nervosamente e olhou de lado para Horácio.

-Então faça o favor de se retirar .
- Ritinha, pára de palhaçada. Vamos embora juntos.
- Já lhe disse que meu nome não é Ritinha.

O acompanhante chegou mais perto de Horácio.:

- Ela não se chama Ritinha. E se o senhor não se retirar agora, vou chamar o segurança.

Em dúvida, Horácio voltou a sentar-se com os amigos.

- E aí, Horácio? Conhecidos?

- É. É – respondeu sem graça e cabisbaixo.

Passou o resto da noite calado. “Será que bebi demais?” – pensou. “ Amulher é a cara da Ritinha”. Chegou em casa dez da noite. Ritinha estava na sala lixando as unhas.

- Isso são horas?

- Eu é que pergunto se tenho cara de palhaço! Tenho?
- Você está se sentindo mal Horácio? Que história é essa?
- Ritinha, me diz a verdade. Juro, não vou brigar com você. Seja sincera!
- Que verdade?
- Juro que não brigo com você.
- Tá vendo o que dá beber demais? Pode me contar o que está acontecendo?
- Eu vi você no bar do Aníbal com outro homem e você disse que você não era você.
- Surtou, Horácio?
- Era você, né? Fala. Não vou brigar.


Ritinha passou a língua pelos lábios, coçou a cabeça e fez cara de suspense. Horácio insistiu:

- Era você?
-Não. Era a Regina!
- Regina? Que Regina? Não conheço nenhuma Regina.


Ritinha começou a chorar. Olhou para a televisão apagada e perdeu-se em pensamentos.

O marido sacudiu a mulher :
- Fala, quem é Regina?
- Minha irmã gêmea.
- Você nunca teve irmã gêmea.
- Era segredo. Minha mãe me fez prometer que eu nunca contaria nada. Quebrei a promessa.
- Mas por quê? Sou seu marido. Quero saber de tudo!
- Mamãe deu a Regina para outra família quando fizemos um ano. Não podia ficar com as duas.


A mulher contou chorosa a triste história da família. Comovido, Horácio desculpou-se com a esposa pelas desconfianças. No dia seguinte, enquanto tomavam café, o marido comentou:

- Se eu encontrar a Regina novamente, vou falar de você, tá bom?
- Nunca! Ela não sabe da minha existência. Não perdoaria mamãe.
- Ela vai ficar feliz quando souber que tem uma irmã gêmea – argumentou.
- É um segredo de família. Morre aqui.


Horácio chegou no trabalho frustrado. Queria reaproximar Ritinha e Regina. Durante uma semana, depois do expediente, passava no bar, esperando encontrar a gêmea da esposa. Um mês depois, quando andava pela Sete de Setembro, viu a gêmea saindo de uma loja . Aproximou-se, segurando-a pelo braço:

- Desculpe, não sei se lembra de mim. Bar do Aníbal.

Ela fechou o rosto :

- Lembro . O que o senhor quer dessa vez?
- Desculpe, Seu nome é Regina e não Ritinha. O garçom me contou – mentiu.
- Tá desculpado.
- Para eu acreditar nas suas desculpas, aceita  um café?


Sentaram-se num bar perto do metrô. De início estavam encabulados. Meia hora depois pareciam íntimos. Passaram a se encontrar durante o almoço às sextas-feiras. Horácio impressionava-se com Regina. Achava a gêmea mais bem-humorada que a esposa. Manteve os encontros em segredo. Numa quinta-feira, no final da tarde, Regina o convidou para um happy hour. Aceitou. Encontram-se. Sorridente, Regina mostrou:

- Trouxe uma coisa e quero que você veja!

Tirou da bolsa um baby doll vermelho.

- Que tal? É bonito? – disse com um ar ingênuo cheio de sensualidade.

Horácio ficou confuso. Ele e Ritinha não faziam sexo há quase seis meses . “Fazer sexo com a irmã gêmea dela?” – pensou. “Não, loucura. loucura”. Ela tomou a iniciativa. Ele seguiu os instintos. Quando percebeu, estavam subindo as escadas de um motel no centro da cidade. Entraram no quarto em silêncio. Regina vestiu o baby doll. Viveram momentos de prazer. Oito da noite. A mulher olhou o relógio, assustada:

- Tenho que ir pra casa, meu marido me espera!
- Quando vamos nos ver novamente? – perguntou Horácio com ar apaixonado.
- Semana que vem. Já vou. Tenho pressa.


Despediram-se. Horácio foi tomar banho sonhando com novo encontro. A mulher entrou no táxi e deu o endereço :

- Rápido, moço. Por favor.


O celular tocou . Atendeu contrariada :

- Fala mãe!

A mãe gritava. A mulher deu um sorriso e respondeu calmamente:

- Quem é Regina???? Ahhhhhhh mãe, já sei, o Horácio foi falar com você?!
-Sim e eu quero saber quem é Regina . Você nunca teve irmã.
- O que você falou com ele, mãe?
- Nada. Disfarcei e não respondi .

- Então fica calma. Amanhã lancho com a senhora e conto tudo. É uma longa história.

O táxi chegou. Ritinha pagou o motorista e saiu do carro cantarolando!

6 de nov de 2009

BOA NOITE, MEU AMOR !



Saí do quarto na ponta dos pés. Fechei a porta devagar e fui até a sala. Abri a janela e respirei o ar da noite. O vento bateu nos meus cabelos. As luzes da cidade me lembraram, por alguns momentos, da minha infância. De repente uma onda de melancolia invadiu meu ser. Meu coração acelerou e quase saiu pela boca.


Fechei a janela, me sentei no sofá e desandei a chorar. As lembranças de nós dois giravam na minha cabeça. O sorriso. O toque. A boca. Dois anos de namoro. Como eu o amava! Nos conhecemos na fila da locadora. Escolhemos o mesmo filme. Animados, saímos da loja e ficamos meia hora conversando na calçada. Na despedida, entre brincadeiras, ele pediu meu telefone.


Dois dias depois saímos para jantar num restaurante. Luz de velas. Vinho tinto. Troca de olhares. Conversa ao pé do ouvido. A voz doce fazia cócegas na minha imaginação, arrepiando meu corpo. Começamos a namorar. Um mês depois, com o coração acelerado, eu disse pela primeira vez “te amo”. Nosso amor causava inveja. Despertava cobiça.

O som estridente do telefone me trouxe de volta ao presente. Estremeci. Lembrei da minha realidade. Dos sonhos desfeitos. Das promessas jogadas no lixo. Da mentira. Da traição. O telefone tocou novamente. “Deve ser minha mãe”. Peguei o aparelho e falei com voz sonada :

- Alô!

- Minha filha, estou preocupada. Desde cedo ligo para o seu celular e dá fora de área. E seu telefone convencional, estava fora do gancho?
- Sim.
- O que você tem minha filha? Você quer que eu vá para aí?
- Não.
- Você vai ficar bem sozinha?
- Vou.
- Você vem almoçar amanhã aqui em casa?
- Não . Quero ficar sozinha.
- E ele? Ligou?
- Não.

Mamãe desligou preocupada. Fui até a cozinha procurar alguma coisa para comer. Fritei dois ovos com bacon e peguei uma lata de cerveja. “Pra quê comer?” – questionei. Tudo me parecia fora do lugar. A vida fugia de mim. Meu corpo não respondia meus movimentos. Tornei-me uma boneca de pano. Sem expressão.

Peguei dois comprimidos para dormir na mesinha da sala. Desmaiei no sofá. Durante a noite tive pesadelos. Acordei assustada. Pela manhã, o sol invadiu a sala. Acordei com um gosto amargo na boca. Lembrei da noite passada. Fui até o quarto. Abri a porta. Tudo como eu havia deixado. As janelas fechadas. A cama desarrumada. Roupas no chão. Cheiro de morte.

Desliguei os telefones, fui até a padaria, comprei pão e ao passar pela portaria avisei ao porteiro que eu não estava para ninguém. Arrumei cuidadosamente a mesa do café. Duas xícaras. Pães. Queijo. Frutas. Café e leite. Ele não estava ali comigo. Nunca mais. O leve roçar das bocas. Éramos tão felizes. Adeus encanto. Tchau felicidade. Íamos nos casar. Por que mudou de idéia? Quem era ela? Quem destruiu meus sonhos?

O café esfriou. Arrumei a mesa e fiquei assistindo DVD. Presentes dele. Almocei quatro da tarde. O dia empalideceu. A decisão estava tomada. Coragem. Era preciso. Fim de caso. Oito da noite. A cidade novamente ás escuras. Fechei todas as janelas com cuidado.Vedei janelas e portas.

Tomei um banho morno. Coloquei o perfume preferido dele. Liguei o gás. Abri a porta do quarto e lá estava ele. Adormecido. Ainda a sorrir. Deitei-me cuidadosamente para não acordá-lo. Em seguida, limpei as manchas de sangue que manchavam-lhe o rosto de anjo. Coloquei-lhe os braços em volta do meu pescoço e olhei pela última vez o rosto do homem que eu amava. Dez da noite. Respirei fundo. Minhas narinas ardiam. Senti o peito explodir.

- Boa noite, meu amor! Juntos, pra sempre!


NOTA : Em breve meu livro de CONTOS pela Editora Multifoco

2 de nov de 2009

O MISTÉRIO DA CALCINHA VERMELHA

Quando Albertinho buzinou Maria Lúcia já estava pronta. Antes foi até a cozinha se despedir de dona Odélia. :


- Mãe, não tenho hora pra chegar. Sabe como são as festas na casa da Tereza....

- Cuidado minha filha. Diga para Albertinho não beber, não correr.

- Tá bom...tá bom. Pode deixar. Fica com Deus.

- Vai com Deus , minha filha!

Albertinho e Maria Lúcia casariam-se em dois meses. Assim que ela entrou no carro foi recebida com um longo beijo na boca.

- Hummmmmm, tá cheirosa....aposto que é....

- Carolina Herrera. Acertou..

- Sabe que adoro esse perfume!.Coloca para me provocar..

- Olha que assim vamos acabar não indo à festa. – brincou Maria Lúcia.

Durante o caminho conversavam animadamente, quando Maria Lúcia tocou num pedaço de pano com a sandália.

- Tem uma coisa no chão do seu carro me atrapalhando....

- Pega, deve ser a flanela.

Se abaixou e quando trouxe o que a atrapalhava teve um misto de espanto e desespero: :- O que é isso? Não tô acreditando.....


Virou de um lado,.do outro,.esticou.

- É isso mesmo o que estou pensando?! Uma calcinha?!!!

Deu um tapa no braço de Albertinho.

- O que significa isso????

- Tá maluca? Quase bato com o carro por sua causa. Isso o quê?

- Olha aqui, calcinha vermelha, transparente, dessas usadas por vadias.


Albertinho encostou o carro e olhou perplexo:

- Fala Albertinho, de quem é essa calcinha?

- E você pergunta pra mim?

- O carro é seu, ora! Só você sabe de quem é a calcinha. Com certeza não é minha. Não uso calcinha de vagabunda. E mesmo assim é muito pequena..

- Minha fofa, não sei nem o que dizer.

- Fofa? Me chifra com uma magrela e agora vem de nhénhénhén? Pois vai arrumando uma explicação, aliás, uma boa explicação, Albertinho!

- O que você quer? Que eu invente uma história?

- Albertinho, como essa calcinha veio parar no seu carro? Responde. Estou esperando.

- Não sei. Juro. Não sei.

- Teria sido alguma mágica? Ou você estava parado no sinal e a calcinha veio vooooaaando de algum enxugador e entrou pela janela do seu carro?

- Pode ter acontecido isso mesmo.

Maria Lúcia começou a socar o braço do noivo:

- Cara- de- pau! Você é um grandessíssimo cara- de- pau!

- Calma, violência não leva a nada. Vamos raciocinar: .de quem pode ser essa calcinha?

- De alguma piranha que transou com você. – e começou a chorar

Continuou falando em tom comovido:

- Logo no carro que você me leva pra passear? Foi no banco que eu sento? Me diz!? Foi?

- Não andei com ninguém,.juro, fofa! Deve ser da minha irmã. Não chora.

- Você quer me fazer de palhaça? – irritou-se.

- Sua irmã tem mais de 80 quilos, impossível entrar nela! Essa calcinha cafona é de alguma vadia do SEU TRABALHO . É isso! Quem é ela, Albertinho?

- Quê isso! No meu trabalho não tem vadia. Sei lá como essa calcinha veio parar no meu carro. Coisa de louco!

- Então é sua! Você é gay! Você faz programa vestido com calcinha vermelha........

- Viajou, Maria Lúcia......

- Abre a boca Albertinho, abre essa boca!

- O que você vai fazer? Eiiiiii......


Maria Lúcia fez um bolinho com a calcinha que estava na mão e enfiou pela boca de Albertinho :

- Engole essa porcaria! Não quero tão cedo ouvir sua voz, seu mentiroso, tarado!

Saiu do carro e pegou um táxi. Albertinho passou o final de semana tentando falar com Maria Lúcia. Ela só atendeu o telefone uma vez:

- Quem é a dona da calcinha?

- Maria Lúcia, eu ...

- Não sabe?


Desligou o telefone. Na segunda-feira, Albertinho chegou ao trabalho e foi direto falar com Claudia Helena, colega do departamento pessoal.

- Toma! – jogou a calcinha em cima da mesa de Claudia Helena.

- O que é isso ? – assustou-se .

- Minha noiva achou sua calcinha no meu carro. Satisfeita agora? – falou com ironia.

- Você contou pra ela que a calcinha é minha?

- Claro que não! Nem vou contar. Morro, mas não conto...


Querendo separar o casal, Claudia Helena liga para Maria Lúcia e diz em tom debochado que é a dona da calcinha vermelha. Dois meses depois da confusão, Maria Lúcia se casa, mesmo sabendo da traição. Durante a lua-de-mel, Albertinho curioso quis saber:

- Minha fofa, você é uma mulher intrigante....

- Por que , fofo?

- Achei que você nunca fosse me perdoar por causa da tal calcinha. O que fez você finalmente acreditar que eu não sabia de quem era aquela calcinha horrorosa?

Maria Lúcia deu um sorriso cínico e com ar misterioso respondeu:

- Deixa pra lá. Coisa de mulher, fofo!

25 de out de 2009

O EDREDON





Noite fria de quarta-feria. Macedo assistia ao jogo do Flamengo pela televisão, quando Marinilce apareceu na sala aborrecida.

- Não tá me escutando chamar lá do quarto?
- Fala?! O que é? Vou perder o gol do mengão.
- Depois você vê isso. Agora vai lá no quarto para pegar o edredon em cima do armário. Não alcanço.
- Edredon? Outro? Mas você não pediu para eu pegar um na segunda-feira?
- Pedi. Agora tô pedindo para você pegar outro.
- Como se gasta sabão em pó nessa casa – reclamou Macedo.
- O que tem uma coisa a ver com a outra?
- Usou o edredon dois dias e já colocou pra lavar?
- Não. Esse que você vai pegar é outro. Quem vai dormir com ele sou eu.
- Você?
- É.
- Você está querendo dizer que cada um vai dormir com um edredon?
- Nossa como você é inteligente! – debochou Marinilce.

Macedo, que ia se levantando do sofá, tornou a sentar-se.
- Macedo, eu quero dormir. Vai logo pegar meu edredon.
- É por isso que nosso casamento tá indo para o buraco. Agora cada um dorme com um edredon. Daqui a pouco dormiremos em camas diferentes...
- Não acredito que você vai arrumar briga por causa disso.
- Posso saber por que a princesinha quer dormir com um edredon só pra ela? – ironizou.
- Porque durante a noite você puxa o cobertor para o seu lado e eu fico morrendo de frio.
- E por que você não me acorda ou puxa o cobertor?
- Toda noite, Macedo? Não é mais fácil cada um dormir com um edredon?
- Não. Assim eu não posso ficar juntinho de você.
- Na hora que a gente dorme você tá juntinho. Depois você se espalha e aí quem se dá mal sou eu.
- Eu não vou pegar outro edredon. Nós vamos dormir juntinhos. Fim de papo.
- Ah é? Vou no seu Aníbal pedir para ele pegar o edredon pra mim!
- Duvido. Você não é besta.
- É?

Decidida, Marinilce abriu a porta. Macedo impediu-a de sair. A discussão recomeçou .

- Marinilce, desiste da história de cada um dormir com um edredon. Você está colocando nosso casamento em risco.
- Deixa de ser besta, Macedo. Dez anos de casados. Até parece que casamos ontem!
- Fim de papo, Marinilce! O jogo vai começar! Vai dormir com o edredon que tem e quando eu for deitar, me viro.
-Tá frio Macedo. De noite você vai puxar o edredon e quem vai ficar com frio sou eu!
- Isso vai dar em separação. Foi por causa disso que o casamento do Ismael acabou.
- O que tem a ver o casamento do Ismael com o nosso?
- Primeiro a esposa começou a dormir no sofá por causa da tosse do Ismael Depois, foi dormir na casa da mãe . E em seguida....arrumou um amante.
- Não dava para ele tomar um remédio pra tosse?
- Outro edredon, não! Fim de papo! O jogo vai começar. Psiu!
- Ah é? Então vou no apartamento da Judith pedir um edredon emprestado.
- Pois então, vá! Só estou lhe avisando : Nosso casamento está por um fio!

Marinilce saiu decidida. Tocou a campanhia na casa da vizinha. Sérgio André atendeu :
- Você poderia chamar a Judith?
- Hoje ela vai dormir na casa da irmã. Deseja alguma coisa? Entra – disse, simpático.

Marinilce achava o marido da vizinha pedante, mas aceitou o convite para entrar. Ele fez um café e gentilmente ofereceu a ela.

- Posso ajudar em alguma coisa?

Aquela pergunta delicada fez Marinilce gelar as entranhas. Estremeceu quando Sérgio André tocou-lhe levemente nos braços.

- Está sentindo alguma coisa? O café está muito quente?

Um torpor estranho tomou conta de  todo seu corpo. Viajou sem sair do lugar.  Em seguida, ajeitou a roupa e gaguejando despediu-se de Sérgio André.

- Eu falo com a Judith depois.

Saiu batendo a porta. Chegou em casa em estado de êxtase. Os pensamentos fervilhavam. Passou pela sala e não deu nem boa noite ao marido, que gritava sem tirar os olhos da TV:

- E aí? Pegou o edredon com a Judith?

Não respondeu. Entrou no quarto, deitou na cama lentamente e cobriu-se com o  edredon, ainda em estado de letargia. Logo adormeceu. Sonhou que fazia sexo selvagem com Sérgio André. Acordou suspirando. Voltou a dormir e a sonhar. Com medo de desagradar Marinilce, Macedo dormiu com um lençol. Tremendo de frio, pegou no sono quando o dia clareava.

18 de out de 2009

O SEGREDO DO NOIVO





Neli folheava uma revista no sofá da sala, saboreando um pedaço de torta de brigadeiro, quando a irmã chegou com a novidade.

- Vou casar!

- Com quem?

- Só pode ser com o Vicente.

- Duvido.

- Duvida? Por quê? Sabe de alguma coisa que eu não sei?

- Duvido.

- Existe um motivo para você duvidar. Qual é? Conta.

- Duvido.


Nádia se irritou e começou a sacudir Neli pedindo uma explicação. Para deixar a irmã mais irada, ela respondia aos gritos compulsivamente:

- Duvido. Duvido. Duvido.


As duas iniciaram uma discussão interrompida pela mãe.

- O que é isso meninas? Que gritaria é essa?

- A culpa é da Neli. Ela está de deboche comigo – gritou Nádia, chorosa.

- Não quero saber de quem é a culpa. Acabem com isso, JÁ!


Nádia se trancou no quarto, confusa. As palavras de Neli caíram-lhe na cabeça como um tijolo. A dúvida plantou-se no seu frágil e inseguro coração e ela se perguntou, apertando os lábios e franzindo a testa: “O que a irmã sabia, que ela não sabia?” Enquanto Nádia se martiriza e rola na cama de um lado para o outro, no quarto ao lado, Neli apaga a luz e adormece com um sorriso no rosto.


Durante o café da manhã, não se falaram. Para provocar a irmã, antes de se fechar no banheiro, Neli gritou:

- Duvido. Duvido muito que saia casamento!


E caiu na gargalhada. No fundo, tinha raiva de Nádia. Culpava-a pela morte de Rodrigo, o homem com quem um dia, pretendia se casar. Rodrigo morreu pilotando a moto que comprara um mês antes de sua trágica morte. Na noite do acidente, o rapaz teve uma discussão com Nádia, que o acusou, na frente de Neli, de beijar outra mulher.

A morte prematura do noivo deixou cicatrizes profundas na vida e na alma de Neli. Aconselhada pelas lembranças mórbidas, entrou em depressão e afogou a tristeza nos doces e chocolates. Engordou 30 quilos. Agora, passa os dias em frente à televisão ou lendo revistas de fofoca e comendo avidamente pedaços de torta de brigadeiro.

Naquela manhã, ao escutar as gargalhadas de Neli, Nádia saiu de casa disposta a ter uma conversa séria com Vicente. Chegou ansiosa no trabalho e ligou para o futuro esposo.

- Dá para almoçar comigo hoje?

- Aconteceu alguma coisa?

- Dá ou não dá?

- Tá , eu vou .


Durante o almoço, Nádia olhava Vicente de soslaio. Ele estranhou.

- Pode me dizer o que está acontecendo?

- Quero saber o que você me esconde.

- Não entendi?!

- Vamos, diz a verdade. – gritou, batendo na mesa.

- Mas quê verdade? Não tô entendendo.

- Não seja sonso. Abre o jogo.


Vicente não reconheceu a mulher serena do dia anterior. Discutiram. Ele voltou para o trabalho aborrecido. Quando Nádia chegou em casa, Neli perguntou, curiosa:

- E aí, descobriu?

- Descobri o quê?

- O segredo do Vicente.

- Qual segredo? Fala Neli , o que você sabe?

- Não vai haver casamento. Só digo isso.

Confusa e atormentada pela maledicência da irmã, Nádia não deu trégua ao futuro esposo. Vicente passou a ser vigiado compulsivamente. A noiva aprontava escândalos em cascata. Não podia vê-lo conversando com uma mulher que a confusão se formava. Quase fez Vicente perder o emprego ao discutir enciumada com uma cliente importante da loja. O celular do noivo virou alvo de sua cobiça ciumenta. Esperava-o chegar da rua, para crivá-lo de perguntas.

Vicente não entendeu a mudança de Nádia, que de carinhosa, transformara-se numa mulher ciumenta e tirana. Chegou a desabafar suas angústias com Neli:

- Sua irmã era tão doce. Agora virou uma mulher rabugenta e desconfiada. Já me aprontou vários escândalos.

Neli aconselhou:

- Toma cuidado. Ela não é essa criatura doce que aparenta. É tudo fachada.

Com vergonha dos escândalos e com medo de novos constrangimentos, terminou o romance. Nádia gritou, esperneou e ameaçou. Não surtiu efeito. Vicente sentiu que tirava um peso das costas. Chegou em casa e fez as malas. Se encarregou de tudo. Pediu transferência no trabalho e embarcaria no dia seguinte, para outro estado.

Nádia chegou em casa aos prantos e ameaçando tomar veneno. Neli esperava-a no sofá:

- O que houve?

- O Vicente terminou comigo.

- Eu não disse?

E olhou para a irmã com ares de sabedoria. Nádia sentiu-se a pior das mulheres e procurou consolo no colo da irmã. Neli deu um sorriso vitorioso e ofereceu-lhe, satisfeita , um pedaço de torta de brigadeiro.

12 de out de 2009

SEXO POR TELEFONE


Verão. Tarde de domingo. Três amigas conversam na areia da praia de Ipanema, em frente à Rua Vinícius de Moraes. Lidiane bebe seu refrigerante, quando Maria Alice fala empolgada :
- Vai ser hoje. Estou morrendo de curiosidade!
- Sexo por telefone? Qual é a graça?
Maria Alice responde ironicamente:
- Vou fazer e depois conto tudinho, tá bom assim?
Para as duas não discutirem, Regina Lúcia tenta mudar o rumo da conversa:
- Maria Alice há quanto tempo Jorginho está na Bahia?
- Um mês . Volta daqui a duas semanas. Isso se a empresa não inventar outro curso.
- Já sei! Já sei!
- Que susto, Lidiane! Sabe o quê?
- Faz sexo virtual. Se tiver uma webcam melhor ainda.
- Só se for na lan house do hotel com todo mundo olhando.
Acabaram rindo e encerraram o assunto chamando o vendedor de mate. Saíram da praia no início da noite. Maria Alice estava excitada com a idéia de fazer sexo por telefone. Seria a primeira vez. Se preparou especialmente para o momento. Depois de um longo banho, colocou o perfume preferido do namorado e escolheu uma camisola sensual. Quando o telefone tocou, andava ansiosa de um lado para o outro á espera da ligação:
- Jorginho?
- Oi , minha linda!
- Que saudade , meu lindo! Pensei muito em você hoje.
- Eu também. Estudava e pensava no que íamos fazer à noite. Está pronta?
- Sim. Quem começa?
- Como foi seu dia?
- Já começou?
- Não, linda , só quero saber o que você fez de bom. Foi à praia?
- Fui com a Lidiane e a Regina Lúcia. Comentei com elas sobre nossa aventura.....
Foi interrompida por Jorginho :
- Contou para elas sobre o sexo por telefone?
- Qual o problema?
- Tudo você conta pra elas? Isso é coisa só nossa.
- Elas me conhecem há tantos anos . Não temos segredos....
- É chato, Maria Alice. Não vou ter coragem de olhar para a cara das suas amigas. No dia que eu broxar você também vai contar pra elas?
- Deixa de bobagem. Esquece. Vamos começar? Estou excitada .
- Muito ou pouco?
- Muito. Sua voz está super sensual .
- Estou fazendo essa voz só pra você, minha linda.
- Nossa, me arrepiei toda agora.
- Queria estar aí para ver. Estou morrendo de vontade de pegar....
Maria Alice cortou a conversa :
- Jorginho, me lembrei de uma coisa: você comprou o azeite de dendê que minha mãe pediu? Se você esquecer ela vai falar pra caramba!
- Pô Maria Alice, isso é hora de lembrar de azeite de dendê? Cortou meu tesão.
- Desculpe, é que eu fiquei com medo de não lembrar depois. Ela já me ligou hoje cobrando.
- Não comprei, mas vou comprar. Pode deixar.
- Anota na sua agenda. Não me esquece esse azeite!
-Tá bom. Agora vamos começar. Essa ligação vai ficar cara demais.
- Estou esperando. Começa .
- Você me deixou perdido. Estava indo tão bem. Ia começar e você veio com essa história de dendê.
- Desculpe, já disse. Foi sem querer.
- O problema é concentrar novamente. Sexo é cabeça.
- Vai, amor , você consegue. O que eu preciso dizer para você ficar excitado?
- Me chama de cachorrão.
Maria Alice faz uma voz melosa para impressionar o namorado:
- Vem meu cachorrão. Late pra mim, late.
- Sacanagem! Latir, Maria Alice?!
- Exagerei. Desculpa. Vamos tentar mais uma vez..
- Tá. Se dessa vez falhar , a gente desiste. Combinado?
-Combinado. Quem começa?
- Você.
- Eu? O que é que eu vou falar?
- Que falta de imaginação!Alguma coisa romântica.
- Não, Jorginho. Começa você.
- Desligou o celular? Não quero ser interrompido pelo toque de celular.
- Tá desligado. E o seu?
- Também. Vou começar. Concentração. Qual é a cor da sua calcinha?
O interfone toca insistentemente.
- Jorginho, o interfone está tocando. Quem pode ser a essa hora?
- Não atende.
- Não pára de tocar. Péra aí, vou ver.
Era o porteiro:
- Dona Maria Alice, o apartamento 202 está pegando fogo. Os bombeiros estão evacuando o prédio.
- Pegando fogo? Fooogooo?
Desceu de camisola. No telefone, Jorginho gritava:
- Maria Alice, ei, você está aí? Fala, o que aconteceu? Maria Aliiiiiiiccceeeeeeee...

5 de out de 2009

TARADO POR CALCINHA


Pericles adorava calcinha . Sonhava com calcinha, venerava calcinha. Quando criança, amava espiar a mãe e a irmã pelo buraco da fechadura. No banho, deliciava-se quando, por um descuido, elas deixavam as calcinhas penduradas no box. Ao completar 22 anos tornou-se um obsessivo pela roupa íntima feminina. Familiares e amigos acreditavam que só um psicólogo poderia entender-lhe a tara. Sempre que uma mulher o interessava, logo ele perguntava curioso:
- Eu sei que pega mal, mas por favor, não se ofenda com o que vou perguntar. Poderia me dizer que tipo de calcinha você gosta de usar?
As mulheres sentiam-se invadidas com a pergunta e o romance acabava antes de começar. As amigas o achavam um boboca infantil. Ele não se importava. Ria de fazer borbolhas. Na mesa de bar, com dedo em riste, defendia suas idéias como se estivesse num palanque. Ficava vermelho e se engasgava com os petiscos.
-Não admito ir para a cama com uma mulher de calcinha furada e grandona e nem com calcinha de florzinha. Não sou pedófilo!
Recebia conselhos:
-Cara, tá certo que você gosta de calcinha cavadinha, preta, sensual, também gostamos. Mas ficar perguntando isso pra mulher que você acabou de conhecer é grosseria. Não se mede uma mulher pela calcinha que ela usa.
Pericles retrucava:
-Você transaria com uma mulher com a calcinha suja? Rasgada? Melhor broxar antes do que broxar na cama.
Nas festas ou baladas os amigos ignoravam Péricles. Não queriam passar vergonha . Na cara-de-pau, ele perguntava ás desconhecidas nas baladas:
-Que tipo de calcinha você gosta de usar?
Se recebia um fora, disfarçava e arrumava outra vítima.
-Posso ver sua calcinha? Deixa?
As mais desinibidas levavam na brincadeira e o chamavam de excêntrico. As mal humoradas, porém, partiam para a agressão verbal e o chamavam de bêbado. Nem assim tomava jeito. Ainda contava para os amigos gargalhando:
- Se a vadiazinha ficou ofendida é porque devia usar calcinha ordinária.
O coração de Pericles bateu mais forte quando conheceu Leninha. Moça linda e com sorriso de capa de revista. Era prima de um grande amigo. Encantou-se pela morena e abriu o coração para Reginaldo, que o preveniu:
- Vai com calma, é minha prima! Se ficar de palhaçada vai se ver comigo. É meu sangue.
- Pode deixar. Fica tranqüilo.
O namoro completou um mês. Meio a contragosto, Péricles segurou a curiosidade a respeito das calcinhas da moça . Tentando se controlar, pensava: “Uma mulher bonita só pode usar calcinha sensual. Ela é a mulher da minha vida”.
A primeira e única noite de quase amor entre os dois aconteceu na casa da namorada. Estavam sozinhos assistindo a um DVD. Depois de duas taças de vinho, começaram as carícias. Quando Pericles levantou o vestido de Leninha, gritou assustado:
-Cueca ??!! Isso não é uma calcinha !!!?? É uma cueca do piu piu!
Com voz adocicada, ela o puxou pela nuca:
-Qual o problema, amor? Gosto de usar cueca. São mais confortáveis.
Vem, gostoso, tira a minha cuequinha.Ele perdeu o tesão. Broxou. Teve ânsia de vômito. Tonto, empurrou Leninha, vestiu-se e saiu se batendo pelas paredes. Nunca mais viu a jovem.
Revoltado, Reginaldo tomou satisfação:
- Você é um desequilibrado. Precisa de um psiquiatra. Como você pôde humilhar minha prima assim, cara? Louco de pedra!
Péricles não se intimidou:
- Sou como sou. E pronto. Não gostou ? Então bate.
Para evitar futuras decepções, Péricles passou a comprar calcinhas e distribuir entre as ficantes e namoradas. Em casa, tinha uma coleção delas, de todas as cores, modelos e tamanhos. Quando conhecia uma mulher, no primeiro dia presenteava-a.
- Na nossa primeira vez, faço questão que você use a calcinha que eu escolher. É um presente.
Aliás, sempre que a gente tiver relações, quem escolhe a calcinha sou eu!Pericles está casado com Mirialva há dois anos. Até hoje é ele quem compra as calcinhas da esposa

27 de set de 2009

DOUTOR NEVES E A MULHER DAS MEIAS

Segunda-feira, nove da manhã! Neves desceu do metrô e seguia em direção ao consultório na Senador Dantas, quando a chuva apertou. Apressou o passo. Uma mulher morena, alta, se aproximou, lhe oferecendo abrigo no guarda-chuva. Aceitou. Entraram no mesmo prédio. A morena fechou o guarda-chuva. Livre da tempestade repentina, Neves observou melhor seu anjo de guarda. Corpo esbelto, longos cabelos lisos, olhos verdes e lábios carnudos. “Que mulher linda. Parece modelo de capa de revista”. Saiu do transe.:
- Não sei como posso lhe agradecer. Muito obrigado. Se não fosse a sua gentileza, acho que eu ficaria ensopado.
- Não custou nada.
- A senhora trabalha aqui no prédio?
- Não. Na verdade vou para uma entrevista de emprego. E o senhor?
- Tire o senhor, por favor. Eu sou médico. Urologista.
- É uma profissão muito bonita. A medicina é um sacerdócio.
- Gosto muito do que faço.
O elevador chegou.
- Por favor, a senhora primeiro.
- Senhora não, você – brincou a morena com um sorriso de canto de boca.
Subiram. No meio do caminho a morena soltou um gritinho sensual. Neves levou um susto.
-Aconteceu alguma coisa?
- Olha só! – disse a morena com voz de sabiá apontando para a perna.
- Estou indo para uma entrevista de emprego e minha meia rasgou. E agora?
- Não dá para notar –respondeu Neves, sem graça com aquele par de coxas à mostra.
- Não posso chegar na entrevista com as meias rasgadas. Pode arranhar minha imagem. Seu consultório é em qual andar?
- Chegamos. É aqui. Décimo oitavo.
- Desculpe, eu poderia tirar a meia no seu consultório? Pega mal aqui no corredor. As câmeras podem me filmar...
-Claro. Acompanhe-me por favor.

Constrangido, Neves abriu a porta do consultório e deixou a morena entrar primeiro. Pensou na esposa. Se Marizete o visse com aquela morena, criaria um caso. A esposa era muito ciumenta . Neves trancou a porta, enquanto a morena observava tudo.:
- Seu consultório é confortável!

Neves deu um riso sem graça. Era tímido. Casou com a segunda namorada, aos 22 anos, viveu para a medicina e a família e só agora, aos 49, se deu conta de que só teve duas mulheres na vida. Quando a morena levantou o vestido e começou a tirar a meia calça na frente dele, Neves engoliu em seco e se abanou nervoso. “Ai se a Marizete tivesse aqui “ – pensou.

Passando a língua nos lábios e rodopiando o corpo a morena sorriu.
- Desculpe tirar a meia na sua frente, é que o senhor é médico e acho que não tem problema.
- Tire o senhor, por favor.
-Desculpe..., você é médico, acho que não tem problema.
- Fique à vontade.
- Vai atender algum paciente agora?
- Deve estar chegando. Mas se quiser, pode ficar.
- Obrigada . Está na hora da minha entrevista. Qual é o seu nome?
- Neves e o seu?
- Regina.

Ela pegou o celular e anotou o telefone de Neves. Depois ligou para o celular dele.
- Meu número está no seu celular. Qualquer coisa me liga, tá?

Saiu piscando os olhinhos de forma sensual. Neves atendeu os pacientes no automático. Só conseguia pensar nas pernas da morena. Nunca havia traído Marizete. “Quem sabe se ele e a morena ...?!
– Não, não podia nem pensar. Era areia demais para o seu caminhãozinho.” – sonhou, suspirando profundamente .

Ao chegar em casa encontrou Marizete com uma camisola velhinha, deitada no sofá, vendo televisão. O coração apertou. Jantou pensando na morena. “Será que teria coragem de ligar pra ela?” Nunca havia traído a esposa. Só que a vida estava muito sem graça. Era de casa para o consultório, do consultório pra casa. Marizete era uma esposa fria na cama. Ia fazer cinqüenta anos, precisava de um estímulo, uma injeção de ânimo. Passou a semana pensando na morena. Pegou no celular, mas não teve coragem de ligar. E se ela não lembrasse dele? E se eles se apaixonassem? Teria coragem de terminar o casamento? A imaginação de Neves voava. Tinha sonhos eróticos. A cena da mulher tirando a meia não lhe saía da cabeça. Aquelas pernas roliças e macias. A virada de cintura sensual. Era uma grande tentação do demônio, até para homens fiéis.
Dormiu e sonhou com a morena. Os dois estavam nus, numa enorme cama de casal, com lençóis vermelhos de cetim. Ao redor do quarto, velas acesas, cortinas transparentes e uma bandeja de frutas. A morena colocava morangos em sua boca e cobria seus olhos com uma meia-calça. Acordou molhado. Não podia mais adiar o encontro. Decidiu ligar na sexta-feira. “Ou tudo ou nada” –Ligou.
Marcaram para sábado , meio-dia , no consultório.Criou expectativa. À noite não conseguiu dormir direito. Assustava-se com o ronco de Marizete. Teve pesadelo. As pernas da morena se transformavam em duas cobras enormes . Acordou suado. Foi até a cozinha e bebeu um copo d` água. Adormeceu.

Pela manhã tomou um banho de meia hora. Passou perfume francês. Saiu avisando a Marizete que ficaria no consultório até o final da tarde. Expectativa. Quase receita um remédio errado. Onze e meia. Despediu-se do último cliente e arrumou o consultório. Acendeu incenso. Molhou o cabelo. A campanhia. Abriu a porta. A morena estava de mãos dadas com um homem alto e forte. Não entendeu. “O que significava aquilo?”
Teve a resposta :
- Doutor Neves, boa tarde! Tomei a liberdade e trouxe meu marido. Ele está com problemas para urinar.

20 de set de 2009

MADAME LU

Madame Lu entra na igreja depois da missa das seis, encaminha-se para a segunda fila à esquerda e ajoelha-se lentamente. Em seguida, abre a bolsa e pega um terço, segura-o firme com as duas mãos, fecha os olhos e começa a rezar. Uma senhora aproxima-se e toca em seus braços. Ela dá um salto, mas relaxa quando a mulher mostra a sacolinha. Madame Lu pega uns trocados, coloca na sacola e volta a rezar. A igreja fica vazia e silenciosa. Quinze minutos depois, olha o relógio e perde a paciência. Resmunga alguma coisa e quando prepara-se para guardar o terço, sente duas mãos pesadas pressionando-lhe os ombros.

- Desculpe a demora. Foi o trânsito.

- Pensei que não viesse.

- Jamais. Trato é trato e seria perigoso não aparecer .

- Certamente. Trouxe a outra parte?

- Está tudo aqui. Conforme o combinado.

- Então ajoelhe-se ao meu lado.

- Pra quê? Rezar? Já tenho um lugar reservado no inferno – riu, apertando os lábios.

- Pode ser que rezando Deus o perdoe. Nunca se sabe.

- Não existe perdão para o que eu mandei fazer.

- Acredita em Deus?

- É mais fácil acreditar. Sim, acredito.

- Então porque me pediu para fazer o serviço?

- E você? Acredita em Deus?

- Nunca tive tempo para pensamentos existenciais. Sou pragmática. Muito ocupada.

- Ocupada? Eu diria que intrigante e misteriosa.

-Faz parte da minha profissão.

- Não quer jantar um dia desses comigo?

- Não me envolvo com clientes.

- Nosso contrato encerra hoje. Serviço feito e pago. Não sou mais seu cliente.

- Não misturo lazer com trabalho. Aliás, a polícia desconfia de alguma coisa?

- Me fez algumas perguntas. Mas parece convencida de que foi latrocínio.

- Vi sua foto nos jornais. Parecia um marido sinceramente desesperado, abraçado ao corpo da mulher no asfalto, clamando por justiça.

- Sou um artista. E você uma excelente profissional. Muito boa no que faz.

- É a prática. Não deixo rastro. Na cidade do Rio de Janeiro sua finada mulher já virou estatística .

- Nada como contratar uma matadora experiente. Aprendeu com quem o ofício?

- Vocação. Arrependido?

- Não. Se pudesse mataria aquela vaca gorda novamente.

- Você é um perfeito cavalheiro – disse ironicamente - Não sei quem é pior: Se sou eu ou meus clientes .

- E nós dois?

- O que tem nós dois!?

- Que tal passarmos uma noite juntos? Gostaria de saber se trepa tão bem quanto mata.

- E você acha que eu treparia com um homem que manda matar a esposa?

- Você não é minha esposa. É apenas uma paquera perigosa – riu cinicamente.

- Sou matadora e não prostituta.

- Mas é uma mulher e linda por sinal.

- Sexo despende muita energia. Gasto minha energia no trabalho.

- Não acredito que só veio ao mundo para matar . Uma mulher sensual como você?

- O cheiro da morte me excita. Preciso de adrenalina para preencher o vazio que existe em mim.

- Não acredito que seja tão perversa. Existem outras maneiras de se preencher um vazio.

- Desculpe, preciso ir. Já fiquei tempo demais aqui.

- Tem medo de se apaixonar por mim?

- Medo? Não existe essa palavra no meu dicionário. Preciso ir. Não insista.

- Não vai conferir o dinheiro?

- Confio em você.

- Não quer mesmo sair comigo?

- Não. Toma meu cartão. Se precisar dos meus serviços novamente, entre em contato.

- Você é uma metamorfose: “Cynara Pedicure. Atendo a domicílio” – leu o cartão em voz alta e segurou no braço de Madame Lu :- Era uma cartomante e agora se transformou numa pedicure!?

- Na minha profissão é preciso mudar. Não existe rotina.

- Posso ligar amanhã?

- Amanhã viajo para outro estado. Novo cliente. A indústria da morte não pára.

- Desse jeito vou largar meu emprego e começar a matar gente.

- Se tiver vocação, pode virar meu concorrente. Dá dinheiro. Nunca passei fome.

- Você trabalha sozinha?

- Você é muito curioso. Já disse: Não me envolvo e nem dou informação a respeito da minha vida .

- É uma pena. Gostaria de conhecê-la melhor.

- Nosso contato termina aqui. Hora de partir. Sai primeiro.Ninguém pode nos ver juntos.


Madame Lu fica sozinha. Torna a pegar o terço. Coloca a pasta com o dinheiro em cima das pernas e fecha os olhos. Concentra-se durante alguns minutos. Quando vira-se pra ir embora, esbarra em Padre Antonio :

- Desculpe, Padre.

- Nossa, que moça bonita! Qual é seu nome, minha filha?

- Bárbara.

- Devota de Santa Bárbara?

- Minha mãe colocou o nome em homenagem a ela.

- Que Deus a abençoe e a conserve assim, sempre bela.

- Que assim seja, Padre!

14 de set de 2009

A ESPOSA E O SANTO

Tarde de sábado de muito calor. Yeda está na cozinha com a irmã fazendo um bolo, quando Moacyr entra e despede-se:
- O Carlos chegou. Vou jogar minha peladinha. Lá pelas oito tô de volta!
Antes de ir, vai até a imagem de Santo Expedito, que fica na estante da sala, faz uma oração, benze-se e sai. Jussara olha de longe e comenta com a irmã:
- E aí, como vocês estão?
- Na mesma, Jussara. Moacyr já virou parente, parece irmão.
- Você precisa apimentar o casamento. Por que não aceita a minha idéia?
- Ele é muito moralista . Imagina se vou convidá-lo para ir num sexshop.
- Lá tem brinquedinhos muito interessantes.
- O Moacyr é católico fanático. Acha que tudo é pecado. Ainda tem o Santo Expedito.
-O que é que tem o santo?
- Sabe aquela imagem enorme que tem lá no quarto?
- Sei.
- Da última vez que a gente tentou alguma coisa, ele disse que não conseguia pensar em sexo por causa do olhar fixo do santo em cima dele.
- Tira do quarto. Coloca em outro lugar. Eu, hein!
- Moacyr me mata. Deus me livre! É todo chameguento com a imagem...

O marido era devoto fervorso de Santo Expedito. Aos 5 anos de idade teve leucemia e foi desenganado. Mas, contrariando as previsões catastróficas dos médicos, sobreviveu. A mãe, dona Carmosina, atribuiu a cura às promessas e orações, feitas ao santo das causas urgentes. Moacyr se apegou a ele. Como gratidão, aos domingos, vai à missa das seis e todo final de ano distribui cestas-básicas, além de confessar-se com padre José. Por saber que o marido é defensor ferrenho da moral e dos bons costumes, Yeda tem medo de falar sobre sexo na intimidade da cama e ser mal-interpretada.
- Jussara, você conhece o Moacyr. Agora ele deu para dizer que as mulheres de hoje estão muito vulgares. Acha mesmo que devo levá-lo ao sexshop?
- Então vai sozinha, compra um brinquedinho e mostra pra ele, com jeitinho.
- E se ficar ofendido?
- Arrisca. Não custa nada. Sexo faz bem pra pele.

Antes de dormir, pensou na conversa que teve com a irmã. No dia seguinte foi trabalhar e na hora do almoço, passou na porta de um sexshop no centro da cidade. Avistou um casal saindo aos beijos. Começou a suar nas mãos. Engoliu em seco. Não teve coragem de entrar. Deu meia volta e retornou ao escritório. Passou a tarde dispersa. No final do expediente, resolveu voltar à loja. Pesquisou a vitrine durante meia hora. Tomou coragem e entrou, reparando tudo em volta com curiosidade. Pediu uma sugestão. A vendedora mostrou-lhe vários objetos. Acabou fazendo sua escolha e saiu apreensiva com o embrulho.

Chegou em casa uma hora mais tarde. Moacyr esperava-a, preocupado. Durante o jantar, Yeda pensava na melhor maneira de falar com o marido sobre o sexshop. Deu a última garfada, colocou o garfo de lado, e pronunciava a primeira palavra, quando Moacyr a interrompeu:
- Yeda, trocou a água do copo do Santo Expedito?
- Vou trocar. Esqueci. Desculpa.
- Fala, o que você ia me dizer?
- Nada. Bobagem. Até esqueci o que era!
Depois do jantar, Moacyr ficou na sala assistindo ao noticiário, enquanto Yeda aproveitou e ligou para a irmã:
- Jussara, fui lá.
- E aí, comprou alguma coisa?
- Comprei , só não sei qual vai ser a reação do Moacyr.
- O que você comprou?
- Depois eu falo. Tchau .
Ficou envergonhada de contar os detalhes da compra. Apesar da cumplicidade que tinham, Yeda sempre foi muito reservada e se arrependera de revelar suas intimidades sexuais para a irmã. Na hora de dormir, antes de entrar no quarto, foi ao banheiro. O marido deu-lhe boa noite, fez a oração habitual em frente à imagem de Santo Expedito e deitou-se. Dez minutos depois, quando Yeda entrou no quarto, Moacyr já havia adormecido.

Durante os dias que se seguiram, reuniu forças para ter a tão esperada conversa. Decidiu que não passaria de sexta-feira. Deitaram-se ás onze da noite. Yeda começou a acariciá-lo. O marido estranhou:
- Tá carinhosa hoje. O que deu em você?
- Peraí.Levantou-se, foi até o armário, pegou o embrulho e entregou a Moacyr. Ele abriu o pacote rapidamente, cheio de curiosidade.
- Quê é isso? – franziu a testa, espantado.
- Um vibrador!
- Vibrador?!! Eu sei, mas pra quê?!
- Ué, pra gente usar! A moça do sexshop me explicou que é super macio, flexível.
- Sexshop? Você entrou num sexshop?!

Moacyr apalpou o objeto em silêncio. Os olhos brilharam. Pediu licença a esposa e se trancou no banheiro com o vibrador. Cansada de esperar pelo marido, adormeceu. Sonhou que beijava, com ardor, o dono do botequim da esquina. Durante o beijo, abria os olhos e se deparava com a imagem de Santo Expedito piscando para ela.

9 de set de 2009

A JANELA DO VIZINHO

Sábado chuvoso. Sonolenta, Thaís acordou, se espreguiçou e olhou o relógio. Dez horas. Dia de folga. Virou para o lado e dormiu mais um pouco. O quarto escuro e o barulho da chuva deram vontade de ficar na cama até mais tarde. Levantou depois do meio-dia, tomou café, leu os jornais, verificou os e-mails e preparou uma salada para o almoço.


Três da tarde, abriu a janela do quarto e percebeu que o apartamento em frente não estava mais vago. Imaginou como seriam os novos vizinhos. Recém-casados? Mãe e filha? Idosos? E se fosse um casal com três crianças barulhentas? Sentiu uma pontada na cabeça, ao imaginar um garoto de oito anos, gritando e acordando a vizinhança, tocando uma corneta.


Lia uma revista na sala, quando no final da tarde a chuva apertou. Com medo de cair água dentro do quarto, foi fechar a janela e viu, pela primeira vez, o novo vizinho, andando pelo apartamento, de sunga. Pegou o binóculo para olhar melhor. O homem arrumava as roupas dentro do armário. Thaís ficou por trás das cortina: “Um Deus Grego” – pensou empolgada.


Desceu para comprar pão e passou pela portaria do prédio do novo vizinho. Viu o porteiro e aproveitou: - Boa noite, seu Argemiro. Que chuva, hein?

- Chuva é coisa boa! Molha as plantinhas. Tava muito quente.

- Temos vizinho novo no prédio, né?

- Sim, senhora. E o apartamento dele fica de frente para o seu.

- Eu sei . É um casal com filhos ou sem filhos?

- É um solteirão. Deve ter uns 36 anos. É piloto. Viaja muito.


Satisfeita com a resposta, se despediu, sorridente. Assim que voltou para o apartamento, ligou para a amiga Anelise.- Você precisa ver o homem lindo que veio morar na janela em frente a minha!

- Solteiro?

- Solteiríssimo. Acho que vou passar o dia na janela.

- E se for gay?

- Não tem a menor pinta. É piloto. Já me informei com o porteiro.

- Então amanhã me espera. Quero conhecer seu novo vizinho.

-Combinado. Mas, olha, ele já tem dona. Eu!


Antes de adormecer, Thais imaginou que estava no apartamento em frente, escutando música e bebendo vinho. Acordou de madrugada para ir ao banheiro e aproveitou para olhar pela janela. Lá estava o vizinho dormindo de sunga, esparramado na cama de casal, com as cortinas abertas.


No dia seguinte Anelise chegou para almoçar a uma da tarde.

- E aí , cadê o gostosão?


Foram até a janela. O vizinho estava de short, sem camisa, sentado no sofá e lendo jornal. Quando percebeu que era observado, levantou e se debruçou na janela.

- Boa tarde, sou o novo vizinho! Tudo bem com vocês?

As duas estremeceram de emoção. Refeitas do impacto, se apresentaram. Frederico conversou um pouco e depois, educado, pediu licença, avisando que iria arrumar o restante da mudança. Anelise brincou:

- Se quiser ajuda, pode me chamar!


Ele agradeceu e saiu da janela. Thaís não gostou.

- Eu chamei você pra vir aqui para almoçar e não para paquerar meu vizinho.

- Por acaso ele é propriedade sua?


Almoçaram em silêncio. Thaís saiu da sala para lavar a louça e deixou a amiga sozinha. Quando voltou, viu Anelise sair correndo da janela. Thais desconfiou. Uma hora depois, Anelise se despediu, agradecendo pelo arroz de camarão.


Durante a semana Thaís pouco viu Frederico. Quando se encontravam na janela, ele dava um tchauzinho, mas não puxava conversa. A amiga se mostrou esquiva e ocupada quando ela ligava. No sábado descobriu o motivo, quando viu Anelise e o vizinho aos amassos no apartamento dele. Teve vontade de gritar. Sentiu-se enganada. “Que amiga da onça! Rápida como um coelho e falsa como uma cobra.”! . Passou a noite deprimida e chorosa, e jurou que se vingaria .


Vingança planejada, ligou para Anelise, convidando-a para comer um bobó de camarão na sexta-feira. Convite aceito, Thais escolheu uma garota de programa pela internet, marcou um encontro para o mesmo dia e hora e deu o endereço do vizinho. Fez uma única exigência: A mulher teria que deixar a janela aberta pois o cliente era um tarado exibicionista.


Nove em ponto de sexta-feira, Anelise chegou. Conversaram amenidades. Thaís olhou o relógio e aparentando naturalidade, comentou:

- Você não sabe, menina, mas esse vizinho Frederico, é a maior chave de cadeia.


Sentiu que Anelise ficou interessada. Maliciosa, Thaís puxou a amiga pelo braço:

- Vamos até a janela ver se ele está em casa.

- Espera, antes preciso falar com você.

- Depois você fala. Vamos lá! Tenho uma fofoca boa para lhe contar sobre ele.


Puxou a amiga. Quando chegaram no quarto, Thaís apagou a luz e deixou apenas um pedaço da janela aberta.

- Vem ver , o cara está com uma mulher no apartamento!

Thaís tocou no braço de Anelise e percebeu que ela suava frio.

- Está passando mal?

- Não, não é nada. – disfarçou. – Vamos sair da janela.


Thaís envenenou:

- O Frederico é taradão! Todo dia tem uma mulher diferente na cama dele . Maior cafajeste. E só gosta de piranha!

- É?

- É. As aparências enganam. Muito promíscuo. Ainda bem que não fui pra cama com ele! Bem que ele tentou.

- É?

- E tem mais .

- O quêeeee?

- A vizinha do quinto andar já transou com ele. Ela pegou gonorréia, acredita?


Anelise empalideceu. Correu para o banheiro, se ajoelhou no chão, colocou a cabeça dentro do vaso e vomitou. Thaís deu um risinho e falou com voz sonsa:

- Amiga, acho melhor suspender o jantar. Você está passando mal.

4 de set de 2009

O ESCROTO

João Paulo bateu com uma das mãos na mesa do bar mais uma vez e falou com ar de dono da verdade:

- As mulheres são todas interesseiras! Gostam de um carro importado e de uma boa conta bancária. Não pago despesa de mulher. Meu dinheiro é meu! Só minha mãe usufrui dele.

Os dois amigos que ouviam atentos o discurso de João Paulo, discordaram. Cassiano, amigo de infância, foi o primeiro a falar:

- Você exagera. É por isso que está solteiro. Vai me dizer que a Ana é interesseira? Estamos casados há 6 anos e felizes.

Jader, o outro amigo, também foi em defesa das mulheres:
- Cassiano tem razão. Nem todas as mulheres são interesseiras. Você está precisando se apaixonar, namorar e casar.

João Paulo bateu mais uma vez na mesa, indignado:
- Tá louco. A solteirice é um sacerdócio. Na verdade o amor é um grande jogo de interesse.

Os amigos balançaram a cabeça. João Paulo, inflamado, continuou o discurso:
- E tem mais: quando saio com uma conquista, a despesa é dividida. Elas não quiseram igualdade? Uma vez saí com uma interesseira e levei para o motel. No final, na maior cara de pau, só para irritar, perguntei: vai dividir ou vai pagar sozinha?

Cassiano comentou, já conformado com as idéias do amigo:
- Esse aí não tem jeito não. É um escroto narcisista e arrogante!

Acabaram rindo e pediram mais uma rodada de chopp. Incentivado pela risada dos amigos, terminou o discurso diante do olhar atento de um homem que estava sozinho na mesa ao lado :

- Mulher é um bicho confuso: queriam igualdade e agora reclamam de solidão? As carentes até pagam para ter companhia. E eu lá tenho cara de psicólogo para acabar com a carência de alguém?

João Paulo, 38 anos e bem sucedido profissionalmente, morava com os pais. Com um físico invejável, freqüentava academia todos os dias. Nunca namorou sério. Tinha aversão a compromisso. Enjoava logo das namoradas. Quando chegava nas festas, as mulheres se agitavam.

Relacionava-se sempre com mais de uma. Além de namoradas, colecionava também amigos. Era popular. Não tinha amigas. Não acreditava em amizade entre um homem e uma mulher, principalmente com mulheres bonitas. Apaixonou –se por si mesmo.

A primeira coisa que fazia, quando tirava a roupa no motel, era se olhar no espelho. Se admirava durante um tempo e dizia, cheio de orgulho. para a namorada que o acompanhava no momento:

- Sou ou não sou gostoso?

Cassiano era o melhor amigo. Apesar das diferenças de idéias, se respeitavam. Sabendo da aversão de João Paulo a casamento, costumava provocar:

- Um dia aparece uma mulher para tirar você do sério! Quero ser padrinho dos seus filhos.

- Isso que é amigo. Me desejar uma coisa dessas. Tenho alergia a compromisso e mulher pegando no meu pé....! Gosto de liberdade, trabalhar, ganhar dinheiro, viajar e aproveitar muito. Tem muita mulher gostosa se oferecendo. Não dá para ficar com uma só .

Por causa de uma viagem de trabalho à Europa, Cassiano e João Paulo ficaram afastados durante um ano.

Assim que voltou do exterior, João Paulo ligou para o amigo. :

- Cassiano, tenho uma surpresa para você. Quando posso ir até sua casa jantar e revê-lo? Estou com saudade dos nossos papos!

Marcaram um almoço três dias depois, no sábado. Quando João Paulo chegou acompanhado de uma jovem alta, simpática e sorridente e apresentou-a como noiva, Cassiano se surpreendeu.:

- Que milagre é esse?! Achei que ia morrer solteiro.
- Pois é, milagres acontecem. Nos conhecemos na Espanha. Começamos a namorar para espantar a solidão e ficou sério. E mais: vamos casar e quero você padrinho do meu casamento .
- Casar? Como manda o figurino: igreja, festa, véu....?!.

João Paulo interrompeu e continuou:

- Exatamente.....grinalda, flor de laranjeira, festa....padrinho....os pais dela são católicos tradicionais e fazem questão.

- Quem diria.....parabéns! Estou orgulhoso do amigo.

No dia do casamento, com a igreja lotada, amigos e familiares de João Paulo comentavam o enlace, considerado uma grande zebra. Marcado para ás 7 da noite, deu 7 e meia e nada de João Paulo aparecer. Cassiano ligou para o celular dele mas não obteve resposta .

A noiva chegou e recusara-se a descer do carro enquanto o noivo não aparecesse. Quando o relógio bateu 8 da noite, as fofocas e comentários maliciosos começaram. O padre avisou que não teria mais casamento.

Os pais de João Paulo ligavam para o celular do filho, que não atendia. A mãe de João Paulo tentava se desculpar com os familiares da noiva:

- Deve ter acontecido alguma coisa....não é possível....saí de casa, ele estava se arrumando ..

Sentindo-se humilhada e prometendo se vingar dos homens, a noiva Melissa pediu ao motorista que a tirasse da porta da Igreja. Cassiano, finalmente, conseguiu contato com o amigo:

- Rapaz, onde você se meteu? Tá a maior confusão na Igreja. Seus pais estão constrangidos.....a Melissa já foi embora....os convidados também....

Do outro lado da linha, João Paulo ria:
- Estou dirigindo em direção a Angra dos Reis com uma morena de dar inveja. Conheci na festa de solteiro. Lembra? Me fez perder a cabeça. A vida é boa demais para viver o resto da vida com uma mulher só .. Quanto mais, melhor!

Cassiano tentou convencer o amigo a voltar para dar uma satisfação. No final, sem sucesso, falou:
- Cara posso dizer uma coisa, com todo respeito?
- Diga. Somos amigos. Unha e carne.

- Você é mesmo um escroto narcisista e arrogante !!!!

E começaram a gargalhar

30 de ago de 2009

MISTÉRIOS NA NOITE....


Noite de chuva. Fazia frio. Desceu do táxi, ajeitou o casacão preto de linho , subiu as meias finas, correu até a portaria, colocou as luvas, abriu a porta e subiu três andares de escada, em silêncio. Tirou com cuidado a faca que trazia na bolsa. Cortante. Afiada. Olhou-a com prazer demoníaco. Mordeu os lábios e se livrou da peruca que a incomodava. Soltou os longos cabelos pretos.



Parou em frente ao apartamento 303. Olhou para um lado. Depois, para o outro. Respirou fundo. Tocou a campanhia. O homem abriu a porta só de cueca. Fez cara de espanto. Ela o empurrou para o interior da sala . Colocou-lhe a faca no pescoço . Sorriu cheia de malícia. O peito arfando. Gozava pelo prazer que ainda não tivera.


Em seguida, mandou-o se ajoelhar. Obedeceu acuado. Ela tirou o casacão lentamente. Nada por baixo. Jogou as luvas em cima do sofá . Colocou as meias em volta do pescoço dele. A faca brilhava imóvel no chão ao lado das sandálias prateadas. Fizeram amor até o dia amanhecer. Meio-dia o homem acordou e sonolento pediu :

- Da próxima , quero uma lutadora de boxe !


24 de ago de 2009

EU TE AMO

Sábado de céu estrelado e noite de lua cheia. Lucília e Macedo entraram num restaurante perto da praia e escolheram uma mesa no canto. Depois de fazerem o pedido, trocaram carícias discretas . Envergonhada, Lucília declarou-se:

- Eu te amo!
- O quê?

Repete com voz pastosa:
- Eu te amo, Macedo.
- O que você quis dizer com isso?
- O que você escutou.
- Amor é coisa séria, Lucília.
- Que falta de romantismo! Eu digo que te amo e você me trata friamente?
- Não quero iludir ninguém. Você sabe que eu gosto de liberdade. Sou sincero.
- Em outras palavras, isso quer dizer: Saio com você, mas também saio com outras. Sou infiel. É isso?
- Sem drama, Lucília. Só não quero perder minha individualidade.Amor é prisão.
- Não sabia que você se sentia algemado – disse ofendida.
- Fui claro desde o início : Prezo minha liberdade.
- Isso é desculpa pra sacanagem, Macedo.
- Impressão sua. Só não gosto de cobrança.
- Não cobrei nada, apenas expressei o que sinto. É pecado?

- Quem dá, pede de volta. Amanhã vai me cobrar a mesma coisa. Mulher é tudo igual.
- Você está me confundindo com a sua ex que era ciumenta e te sufocou. Sou diferente.
- Vamos mudar de assunto, essa conversa tá ficando chata.
- Por quê?
- Não estou preparado para compromisso sério. Preciso de espaço para respirar.
- Ei , não te pedi em casamento, apenas disse que te amava.
- Primeiro diz que me ama, depois quer conhecer minha família, dormir na minha casa.
- E qual o problema? Você é alérgico a compromisso sério?
- Tentei outras vezes e não deu certo. Quero uma relação leve. Cada um na sua.
- Então você não é meu namorado?
- Estamos tentando.
- Há quase um ano Macedo? Você é um cara-de-pau!
- Pronto, começaram as agressões. Vamos mudar de assunto.
- Quando é que você vai estar pronto para ser meu namorado oficial?
- Hoje nada é oficializado.
- Então você não me ama?
- Amor é relativo. Você pode amar o time de futebol, pai, mãe. Eu amo meu labrador.
- Você é um filósofo, Macedo. Ama o cachorro, mas não me ama?
- Cachorro não cobra . Homem pensa diferente. Não quero me sentir preso.
-Você perdeu o interesse por mim, é isso?
- Nossa sintonia não está combinando. Não foi isso que eu disse.
- Foi o que você acabou de dizer. Quer ficar livre de mim.
- Não tente adivinhar meus pensamentos. Mulher tem essa mania .
- Não generaliza. Eu sou A MULHER.

O garçom serviu a pizza, enquanto eles continuavam a conversa. Para descontrair, Macedo brincou:
- Mulher é tudo igual .Adora complicar, né?

O garçom deu um risinho sem graça, cortou a pizza e balançou a cabeça timidamente.
- Se precisarem de mais alguma coisa é só chamar. Com licença.
- Macedo, que palhaçada é essa de colocar o garçom na nossa conversa?
- Tava brincando. Tudo você leva a sério. Que mau-humor!
- Perdi a fome – empurrou o prato com cara de nojo.
- Quê isso, Ritinha!
- Ritinha? Você me chamou de Ritinha?
- Chamei? Nem percebi. Desculpe. Você me deixa nervoso. Come a pizza.
- Não quero, pode comer tudo.
- Vai estragar nossa noite?
- Quem estragou foi você.
- Eu?!
- Você, sim. Tá filosofando pra cima de mim, só porque eu disse que te amava. Homem é tudo igual . São todos egoístas.
- Vamos deixar esse papo feminista pra depois. Já pedi desculpa. Come a pizza e vamos mudar de assunto .
- O que você sugere? – falou irritada, balançando a perna e batendo com o pé no chão.
- Que tal falarmos sobre as várias espécies de moscas existentes no planeta terra?
- Você é uma delas, né? O popular mosca de padaria.
- Deixa de ser boba. Minha bobinha.
- Você não aceita o meu amor, troca meu nome e eu é que sou boba?
- Caramba, mulher tem mania de ficar batendo na mesma tecla. Vai, come.
- Pra você é fácil.
- Bobinha, vamos sair daqui e fazer as pazes na cama. Adoro transar com você irritadinha.
- Homem só pensa em sexo. Sou apenas um objeto sexual pra você?
- Você não gosta de ser usada?
- É isso que eu sou pra você. Uma VAGABUNDA?
- Não disse isso. Tá difícil conversar, Lucília! Você leva tudo para o outro lado.
- Que lado?
- Esquece, Ritinha. Desculpe, Lucília. Tá vendo como você me deixa confuso?

Silêncio. Lucília respirou fundo, esticou o corpo, mordeu os lábios e falou decidida:
- Macedo, você é um babaca. Como eu não percebi isso antes?! Vai pra puta que te pariu!Pegou a bolsa e saiu

18 de ago de 2009

INSÔNIA...

Chegou em casa agoniada.
Seria mais uma noite daquelas.
Tirou a roupa. Tomou um banho quente.
Bebeu leite morno.
Pensou no homem amado. Respirou fundo.
Deitou-se. Olhou para o relógio.
Duas da manhã.
Levantaria ás 7 para o trabalho.
No silêncio da madrugada,
o tic-tac aumentou.
Parecia uma bomba relógio prestes a explodir.
Virou-se para o lado direito. Esquerdo.
Nada.
Olhos arregalados.
Dançaria um tango se fosse preciso.
Três da manhã.
O nervosismo venceu.
Tomou um tranquilizante.
Travou o despertador e voltou a dormir.
Acordou nove e meia.
Chegaria atrasada pela quarta vez.
Dessa vez assinaria advertência.

12 de ago de 2009

A RUIVA DO BAR



Terminei meu plantão e entrei no boteco, doido por uma cerveja. Trabalhei o sábado inteiro tirando foto de cadáver .Estava puto com a minha vida de merda e com a calhordice humana. Tenho seis irmãos. Sou o filho caçula, o único solteiro. Voltar pra casa significa aturar a úlcera crônica do meu pai e a artrose da minha mãe. Só bebendo pra esquecer.


Pedi uma cerveja ao Antonio. Quando saboreava meu primeiro gole, uma ruiva franzina, cabelos escorridos, olhos de beagle e rosto afilado, entrou e seguiu em direção ao balcão. Pediu um maço de cigarro. Tirou do bolso o dinheiro amassado e jogou pro Antonio. A ruiva me intrigou. Gosto de desvendar mistério. Me aproximei. Ela cheirava a colônia ordinária, misturada com cigarro. Aquele cheiro de vagabunda me deixou com tesão. Resolvi brincar.

- Cigarro faz mal a saúde, gata!.
- Vai se foder, cara! Te perguntei alguma coisa?


Deu um pinote e saiu sem olhar pra trás. Fiquei com cara de babaca. O Antonio riu de peidar. Sentei no meu canto e bebi outro copo. Não era o meu dia de sorte. Decidi acabar com a garrafa e pegar meu ônibus pra Nilópolis. Chegaria em casa, tomaria um banho quente e assistiria uma merda qualquer na tv até pegar no sono.
Pensava na minha cama quentinha, quando a ruiva voltou. Ela sentou-se na minha frente e começou a chorar. Fiquei sem ação. Não sabia se coçava o saco, se pedia outra cerveja, se perguntava o nome dela. Me enrolei todo. Juro. E ela abrindo o berreiro. Nestas horas o Antonio sabia o que fazer. Era um psicólogo de boteco. Trouxe outra cerveja. Enchi um copo e estiquei minha mão pra a ruiva.

- Bebe e pára de chorar, porra!

Ela entornou tudo de uma vez. Arrotou na minha cara, tirou a garrafa da minha mão e encheu o copo de novo. Peguei de volta.

- Peraí, me diz primeiro o que tá acontecendo. Quer se matar?
- Quero.
- Por quê?
- Meu namorado terminou comigo. Tá apaixonado por outra.
- Quantos anos você tem?
- Vinte.
- Tá de sacanagem? Com essa idade e chorando por causa de homem?
- E tem idade pra chorar? Que teoria babaca, cara! Vai me dar sermão agora?
- Tá cheio de homem carente por aí, precisando de um colo – brinquei
- Eu quero ele.
- Ele fode gostoso?
- Caramba, você é mais grosso do que eu. Vou nessa me atirar na frente de um carro.
- Peraí. Não faz drama . Senta.


Segurei o braço da ruiva, aflito. Eu atraia morte. “Vou dar um porre nessa aprendiz de suicida“ – pensei. Bebemos oito garrafas de cerveja. Ela ficou alegrinha. Ria de qualquer besteira que eu falava. Uma da madrugada. A essa hora não voltaria mais para Nilópolis. Joguei:

- E ai, ruiva? Onde você mora?
- Pô eu moro com o meu ex. Mas ele não deve tá e eu não tenho a chave.
- O que você acha da gente dormir num motel aqui na Mem de Sá?
- É um convite?
- Se você quiser.
- Vamos nessa.

Agarrei a ruiva pelo ombro e lá fomos nós desafiando a madrugada. Entramos num motelzinho ordinário, como ela. Subimos por uma escada de madeira barulhenta. Abri a porta. O cheiro de mofo me deu azia. Escancarei a janela cheirando a cupim. A ruiva sentou na cama. Perguntei, tirando a calça:
- Quem vai tomar banho primeiro?
- Vai você.
- Fica quieta aí, hein?! Não vai fazer merda!
- Pode deixar!
- Posso te fazer uma pergunta?
- Faz.
- Tá menstruada?
- Não.Por quê?
- Não transo com mulher menstruada.
- E quem disse que a gente vai transar?
- É, não vai.

Tomei um banho frio. Esfreguei o sabonete quase arranhando meu corpo. Acho que eu tinha esperança de me livrar das mazelas daquele dia com água e sabão. Saí do banheiro sem roupa. A ruiva foi tomar banho. Voltou nua. Muito magra. Branca demais. Pálida. Perdi o tesão. Mas não podia recusar carne fresca. Não tem coisa pior para um macho do que ser chamado de broxa. Fechei os olhos e pensei na peituda da minha rua que não me dava bola. Deu certo. Foi rapidinho. Peguei no sono com a ruiva reclamando:

- Igual a todos os homens. Fode mal. Vira pro o lado e dorme. Babaca.

Acordei com o estômago reclamando e o hálito fedegoso. Sete horas. Olhei para o lado e não vi a ruiva. Tomei uma chuveirada. Peguei minhas coisas e o maço de cigarro dela em cima da cadeira. O cara da portaria não a viu sair. Caminhei pelas ruas com um mau pressentimento. Quando entrei na Gomes Freire vi uma pequena multidão olhando pro céu. Era a ruiva, do alto de um prédio, ameaçando se jogar. Me aproximei de um cara vestido com roupa de trocador.
- Há quanto tempo ela tá aí?
- Sei não. Cheguei agora. Tão comentando que ela foi corneada. Acho que o namorado é aquele ali.

Vi o cara conversando com um policial. Fui até eles e me identifiquei. O rapaz era o namorado da ruiva. Chamei o colega para um canto e comentei:

- Se o cara tá aí, ela não vai se jogar
- Como é que você sabe? Conhece a moça?
- De vista. Quando ela sair do terraço, dá o maço de cigarro pra ela. Diz que foi o, diz nada não. Tchau.

“Caramba” - pensei. “Fui pra cama com a mulher e nem sei o nome dela.”. Andei até a Central do Brasil e peguei meu ônibus pra casa. Sentei no último banco. Olhei pela janela e respirei o ar poluído. O céu azul me deixou esperançoso. Me deu vontade de cochilar. Recostei no banco e quando tava quase dormindo, escutei alguém gritando:
- Perdeu, cara! Perdeu!. Dá o celular, anda!. Vou te furar todo! Porra, passa logo!


Dois homens roubavam os passageiros. Quando chegou a minha vez foi tudo muito rápido. Prendi a respiração, peguei minha pistola e mirei no assaltante com o trêsoitão:

- Vamos ver quem vai pro inferno primeiro!?