12 de agosto de 2014

Convite

Sei que ainda está distante , mas quero dividir um momento especial da minha vida com vocês. É o convite de lançamento do meu próximo livro " Conversando com o espelho" . Será em Setembro. O livro conta a história de um ex-policial militar, que, preso, julgado e condenado há 23 anos, pelo crime de extorsão mediante sequestro, tem no espelho, o seu principal companheiro e confidente de cela. Inspirado em fatos reais. Realidade e ficção se misturam num romance eletrizante.Uma história  dos nossos dias. Se você deseja interagir e saber mais sobre o livro, adicione a página do Conversando com o espelho no Facebook.

Moça de família

                                            

Quando a filha de Sales abriu a porta , Moraes encantou-se  com a beleza da jovem morena de 18 anos. Verificou com os próprios olhos que  ela era tudo  o que  o amigo falara no escritório e mais alguma coisa. Um verdadeiro pedaço de mau caminho capaz de desvirtuar um homem de bem como ele  : cintura roliça  , pernas esculpidas em academia , olhos grandes da cor da jaboticaba e seios rijos que mais pareciam duas peras. O micro-short deixou Moraes em transe.   Porém, logo se recompôs,  pigarreou e ainda embevecido  falou :
- Como vai, boa tarde !? Você é a Elisinha ? Sou o Moraes,  amigo do seu pai , do escritório. Ele me convidou para almoçar...
Elisinha  sorriu deixando os dentes branquíssimos à mostra e convidou-o a entrar . Quando passou por ela entorpeceu-se ao sentir o  perfume delicado de rosas :
- O senhor pode sentar , por favor, papai  já vem . Ele tá na cozinha com mamãe.
Dois minutos depois Sales aparece sorridente com uma garrafa de cerveja na mão e a esposa do lado :
- Me dá um abraço  , vamos comemorar sua visita. Até que enfim saiu de casa!
- Só você mesmo amigo para me tirar de casa.
- Essa é Divina, minha esposa, esse é o Moraes ,meu companheiro de escritório que perdeu a esposa há dois meses
Depois das apresentações conversavam animadamente, quando Divina foi até a cozinha para olhar o assado.  Sales então, cheio de orgulho, comentou :
-  Minha filha não  é uma verdadeira  princesinha  ?
- É , e como. Uma moça muito linda.
- Elisinha é minha jóia. Uma preciosidade . Sabe como é : única filha mulher, a  caçulinha. 
Durante o almoço, sem que ninguém percebesse , Moraes  lançava olhares maliciosos  para Elisinha . Impressionara-se  com a beleza da morena e sentia raiva pelos 53 anos, que o impediam de paquerá-la ousadamente . O dia passou rápido.

Durante a noite teve insônia. O jeito meigo de Elisinha não lhe saía da cabeça. Achou que a empolgação adolescente eram os primeiros sinais de senilidade. Sales jamais poderia adivinhar-lhe os pensamentos. Seria  uma carnificina.

Quase quinze dias depois da visita a casa do amigo , aborrecido com o calor no apartamento, resolveu  caminhar no calçadão da Avenida Atlântica . Quando já  andara dois quarteirões,  avistou uma jovem com um micro-vestido  que lhe chamou a atenção : “  acho que conheço aquela moça...sim...é ela..a filha do Sales....e está ...não acredito ! Pegando homem no calçadão de Copacabana !!!!! “
Aproximou-se. Ficou desconcertado ao ver que a  linda filha do amigo levava vida dupla. Pega em flagrante, Elisinha falava baixo olhando para o chão :
-Pelo amor de Deus seu Moraes , não conte ao meu pai o que viu. Será um segredo entre nós dois...promete ?
- Mas seu pai precisa saber...isso é uma vergonha !
Como não conseguia convencer Moraes, protagonizou uma cena deprimente . Ajoelhou-se  no calçadão implorando com lágrimas nos olhos :
- Se papai souber que mato aula na faculdade para me prostituir é capaz de morrer do coração. O que preciso fazer para o senhor não contar a ele   ?
Moraes lutou para  tirar a idéia que lhe passara pela cabeça. Venceu a tentação. O instinto. Com cuidado, pegou Elisinha  pelo braço e cochichou-lhe aos ouvidos . Ela topou com um sorriso malicioso nos lábios  :
- Está bom no  sábado ? Quatro da tarde ?
Moraes sacudiu a cabeça concordando  e com os olhos brilhando saiu com o coração aos pulos pelas ruas de Copacabana. Tinha certeza que   perdera o juízo, porém,  uma maluquice de vez em quando – pensou -  até caía bem para colorir a  vida entediante   .
No sábado Elisinha  foi pontual . Quatro da tarde tocou a campanhia do apartamento de Moraes . Passaram a se encontrar toda semana. Remoçou. Ironicamente, foi Sales quem notou  a mudança :
- O que aconteceu com você ? Parece que rejuvenesceu uns 20 anos. Até fica cantarolando sozinho....está apaixonado e não me conta nada  ?
Moraes  disfarçava com um sorriso de canto de boca  :
- Impressão sua....é o calor que me deixa mais corado.
Foi num sábado a tarde que tudo aconteceu. Elisinha e o amante   estavam abraçados na cama , quando ela desabafou :
- Meu pai anda estranho..pelos cantos...não fala direito comigo...será que desconfia de alguma coisa ?
- Como ? Impossível !!?. Nem na sua casa vou para não ser traído pelo olhar.
- Vai ver é  coisa da minha cabeça...
- Esquece , meu pêssego. Fica na cama que vou jogar uma ducha no corpo e já volto.
A campanhia tocou. Moraes  gritou do banheiro :
- Abre a porta , minha frutinha , deve ser a encomenda da padaria.
Elisinha enrolou  uma toalha no corpo e abriu . Ficou frente a frente com o pai.  Sales empurrou a filha com o coração aos pulos. Tremia dos pés a cabeça. Entrou no apartamento gritando  em total  estado de alucinação  :
- Cadê aquele filho da puta tarado ? Cadê aquele filho da puta que desvirginou minha princesinha ?!
- Papai...não é o que o senhor está pensando...calma ! O senhor vai ter um troço !

Moraes  chega na sala e tenta se explicar. É pior. Sales  fica vermelho e dá um uivo ensurdecedor. Em seguida coloca a mão no peito e cai no chão . O enfarto é fulminante. Elisinha  joga-se junto ao corpo do pai e transtornada agride Moraes  com palavras  :
- A culpa é sua ! Tarado ! Indecente ! Imoral ! Não quero nunca mais ver essa sua cara de rinoceronte !


Nunca mais se viram . Moraes nem no enterro apareceu. Elisinha, para redimir-se,  tornou-se beata . Ajuda  na missa das seis  passando a sacolinha.  Em casa, antes de dormir, ora devotadamente para resistir a tentação que lhe corroi a alma  : os olhos azuis de padre Francisco despertam-lhe pensamentos libidinosos e sonhos eróticos. 

3 de agosto de 2014

A capa do meu novo livro " Conversando com o espelho".
Um romance policial eletrizante inspirado na vida de um ex-policial militar.
Você não pode perder. O lançamento oficial será em Setembro.
Quem quiser curtir e obter mais informações sobre o livro pode copiar e colocar no navegador ou quando estiver no facebook : https://www.facebook.com/convercomoespelho?notif_t=page_new_likes

20 de janeiro de 2014

Amores consumistas

                                            
Janete desligou o celular, suspirou e disse em voz alta :
- É o terceiro. Para fechar a semana.
- Terceiro o quê ? – gritou curiosa Ana Claudia, chegando da água .

Janete, Ana Claudia e Inês estavam  na praia de Ipanema num domingo ensolarado. Ana Claudia e Inês foram se refrescar no mar  e quando voltaram, Janete desligava o celular e pensava em voz alta.

Ana Claudia insistiu :
- Terceiro o quê , Janete  ? Responde. Anda.
- Vou sair com um carinha hoje á noite para  transar.
- Estou ouvindo bem , ou você falou que seria o terceiro, só esta semana?
- Ouvindo muito bem .

Janete ficou pensativa. E contou nos dedos :
- Terça eu saí com um lindo. Sexta com outro. Muito chato. O homem chuchu. E agora vou sair com o Luiz Marcelo. Conheci  num  restaurante no Centro da Cidade.
Inês fez cara de espanto :
- Primeiro me responde : o que é homem chuchu ?
- É aquele que você  come e não tem gosto de nada.

Ana Claudia esticou a canga na cadeira , colocou creme no cabelo e com ar de reprovação perguntou :
- Você não acha que com 32 anos está muito velha para dar uma de putinha ?
- Existe idade para ser puta ? E mesmo assim por que sou puta ?
- Saindo com três homens diferentes para ir pra cama em menos de uma semana ?
- Normal. Qual o problema ?
-E a afinidade ?
- Tesão é afinidade, queridinha. Senti  tesão  pelos três . Não é assim que eles fazem ? E são felizes !
- Mulher é diferente.
Inês balançou a cabeça concordando com Ana Claudia. Incentivada, Ana Claudia continuou :
- Você está virando uma mulher fácil. Isso não é felicidade. É desespero.
- Não enche Ana Claudia. Desesperada está você. Há quanto tempo não vai para a cama com um homem ?
- Seis meses. E daí ? Não morri.
- Tá esperando o príncipe encantado ?

Inês fez uma pergunta, séria, franzindo a testa :
- E o amor, Janete ?
- Amor ?
- Sim . Eu amo o Roberto.
- Você está acostumada com o Roberto. Estão juntos há três anos. Você sente tesão por ele ?
Inês olhou para o mar e mexeu nos cabelos.
- Sinto. Mas não é o mais importante.
- É o mais importante, sim. Sem tesão , queridinha, não há relação.
- E só com tesão também não existe.
- Pelo menos existe sexo. Homem foi feito para ser consumido.
- E o amor ? – Ana Claudia tornou a fazer a pergunta.
- Amor não existe.

Inês e Ana Claudia perguntaram juntas :
- Como é que é ?
- Amor não existe . Já diz  um livro, que quem inventou o amor foram os franceses.
- Não começa com filosofia , Janete. – disse Ana Claudia , irritada.
- Não é filosofia. Amor é coisa criada para vender livro meloso, filme chato e romântico, música porcaria... e vai por aí.
-  Então você não amou o Ricardo ? –  Inês perguntou e olhou para ela esperando a resposta.
- Não. Se eu tivesse amado, ainda estaria amando. Sofri, mas passou. Agora eu quero curtir a vida e vocês estão  enchendo a  minha paciência.
-  Queremos o melhor pra você.
- O melhor pra mim é sexo.   Sexo é bom e  faz bem para a pele. Homens adoram ser consumidos igual a um picolé em dia de calor !
- Eles usam camisinha pelo menos ? – perguntou Inês.
-  Óbvio. Os homens que eu ando  são potentes. Funcionam com camisinha.  
- Vai acabar se machucando – disse Ana Claudia com ar de maturidade.
- Quem vai se machucar é você. Há quase um ano você espera para sair com o seu vizinho . Não percebeu ?  Ele não QUER NADA COM VOCÊ .  Parte para outra ou então agarra logo o homem. Viva a vida !
- Ontem ele pediu o número do meu celular e disse que ia me ligar.
- Ele pode até ligar, mas só vai querer uma coisa : sexo. É só sexo. Ninguém gosta mais de ninguém.  Amor virou objeto de consumo. Alias, amor, não existe. É  tesão . Sexo.
- Você está muito recalcada – disse Inês.
- Recalcada são vocês . Eu estou aproveitando a vida. Tenho excesso de tesão.
-  O sol  fritou o seu cérebro ! – rebateu Ana Claudia.
- O cérebro não tem problema. Desde que deixe a xoxota inteira. Tesão  eu tenho de sobra. Acho até que vou escrever um ensaio filosófico sobre o tesão.  Que acham  ?
- Sem graça.
- Não vão brigar , né ? – disse Inês atendendo o celular e fazendo voz doce.
- Hum já sei até quem é.... - riu Janete.
- Ela ama, né Janete ? Não é avulsa que nem você.
- Tá bom, Ana Claudia. Ela ama e eu sinto tesão. Tô indo. Vou me arrumar para mais tarde aproveitar. Ficam vocês aí.
- Vai ...mas usa camisinha.
-  Tá fazendo propaganda para algum fabricante ?
Inês desligou o celular :
- Ué, já  vai ?
- Já. O papo moralista de vocês duas me deixou com o estômago embrulhado.
- Espera. Vamos embrulhar mais ainda o estômago e pedir um sorvete. Que tal ?
- Boa ideia, quero de limão !
- Quero de chocolate ! Chocolate é afrodisíaco !
Depois da primeira mordida, Inês deu uma risada maliciosa :
- Então ?!!! Vamos brindar a vida por existir o tesão !
- Viva o tesão !
- Principalmente o meu ! - disse Janete piscando os olhos. 

As três começaram a rir.  


26 de novembro de 2013

Tá doendo.

Sábado chuvoso. As duas amigas chegaram juntas no restaurante. Iam almoçar e bater papo.  Escolheram a mesa de canto. A  mais discreta. Julieta queria paz.  Sentia-se desanimada. O coração estava apertado. Chamaram o garçom e pediram uma bebida. Assim que ele anotou o pedido e saiu, Regina olhou para a amiga e perguntou:
- Fala, amiga, o que aconteceu  ? Fiquei preocupada com a sua ligação.
 - Tá doendo.
- O quê ? Não entendi !? Você se machucou ?
- Muito,. E não tem remédio que dê jeito.
- Pelo menos almoça. Pediremos algo bem gostoso.
- Não sinto fome.
- Então é melhor suspendermos a bebida e procurarmos um médico.
-  Quero beber. Talvez seja a única maneira de passar a dor.
- Com bebida ? Nossa !! Parece conversa de bêbado. Dá para me explicar o que houve ?
-  O César terminou o noivado.
- Terminou ?  Ele bateu em você ?
- Não, né ??!!
-  Seja mais direta.
- Amiga, meu coração tá doendo.
- O que eu posso fazer por você ?
- Nada. Ninguém pode fazer nada. É esperar passar.
- Não tem chance de voltar ?
- Tentei a semana toda...a outra.. mais a outra...
- Então o jeito é esquecer.
- Não é tão fácil.
- Amiga, não tem outro jeito.
- Acredita que ele já tem outra ?
- Acredito.
- Estou mal. É ciúme. Raiva. Orgulho ferido. Tudo junto.
- Toda mulher passa por isso.
-Eu  não quero mais passar por isso. Tem horas que eu penso que o ar vai me faltar.
- Não é melhor procurar um psicólogo ?
-Se você me garantir que eu vou procurar um psicólogo e a dor vai passar.
- Não existe garantia.
-  Essa é uma dor que não passa com remédio. Nem como palavras. Só com a presença da pessoa.
- Sei...ou melhor, não sei. Nunca senti. Só quando o Fernando terminou comigo. Depois, nunca mais gostei de ninguém.
- Melhor coisa. Gostar e depois ter que desgostar é sofrimento.
- É uma emoção boa.
- Você é masoquista. Não tem nada de bom no sofrimento.
- Veja pelo lado positivo. Da próxima vez você não se entrega tanto.
- Não terá próxima vez. Não quero mais gostar de ninguém.
- É uma ótima opção.
- Só quero sexo casual agora.
- É...só que ninguém manda no coração.
- Vou mandar no meu.
- Não é tão simples assim.
- Como não ? O coração é meu. Agora  é só sexo.
- Tá bom . Não vamos discutir.
- Garçom, por favor, que horas você sai hoje ?
- Seis da tarde.
- Então eu te espero.
O garçom balançou a cabeça, entregou o pedido e saiu. Regina olhou para a amiga com olhar de espanto :
- Ei, o que você está pensando em fazer ?
-Isso mesmo que você imaginou. Agora é só sexo. Ele não é um gato ?
- Mas você não sabe se ele quer sair com você.
- Querida, eu vou pagar o motel, vou fazer sexo e nada mais. Qual o homem que não aceitaria ?
- Só quero ver. Depois me conta.
Ficaram bebendo até ás seis da tarde. Julieta e Regina saíram primeiro. Despediram-se. Julieta esperou o garçom e logo o convidou para esticar a noite no motel. Ele aceitou entre desconfiado e constrangido. 

Já no quarto do motel, ao ver o garçom nu, ela sentou-se na cama e começou a chorar pensando no noivo. A imagem do ex ia e voltava na cabeça dela, como se fosse uma cena de novela.
Espantado , o rapaz perguntou o motivo do choro. Entre soluços , ela respondeu   :
- Tá doendo.
- Aonde dói ? Posso ajudar ?
- No coração. Ninguém pode me ajudar.
- Então vamos embora ?!
- Não. Fica comigo. Dorme comigo. Eu só quero companhia.
- Tá bom.

O garçom ligou a televisão e ficou assistindo em silêncio. Vinte minutos depois, Julieta adormeceu.



19 de novembro de 2013

A festa do meu melhor amigo


Como sempre fazia, saí do apartamento me ajeitando. Coloquei  o tênis no elevador. Cheguei à  garagem  e procurei na mochila a chave do carro. Joguei  minha mochila de estimação  no banco de trás e enfiei a chave na ignição. Girei e dei a partida. Estava indo pra casa do meu melhor amigo. Aniversário de 35 anos. Jonas era bem casado há cinco anos. Ao contrário de mim. Aos 33, continuo solteiro e feliz. Tive poucos namoros sérios, uns três,  e vários  casos.  As mulheres me fascinam,  me adoram , mas me chamam de problemático.  Devo ser. Não consigo manter relacionamentos a  longo prazo. Não sei se o problema é meu, ou delas. Talvez seja o ciúme. Mulheres são muito ciumentas. Detesto ciúme e quando sou cobrado, tenho crises de ansiedade. Não demoro muito a trocar uma pela outra. Talvez seja por isso, que eu  estou cada  vez mais entediado, amorosamente.

Cheguei  a casa de Jonas meia hora depois de vários sinais fechados e interessantes  digressões. Não gosto de festas. Muito sorriso falso e pouco calor humano. Mulheres  com roupas mínimas, cabelos esvoaçantes e coloridos e bocas vermelhas e desfrutáveis. E claro, o melhor,  amigos e bebidas. É o que me conforta. Não, não sou machista e nem é minha intenção denegrir a imagem do sexo feminino. Sou mesmo é entediado.

Fui recebido por Jonas e percebi assim que pisei na sala,  o olhar devastador de uma morena alta, de cabelos lisos e longos.  Apesar do meu ar blasé, faço sucesso com as mulheres.  Sou bonito . Pense num homem bonito. Sou exatamente como você me imaginou. Além de bonito, tenho um olhar distante e misterioso. Enlouqueço as mulheres com meu charme. Distribuo carinho , atenção e um bom sexo.  Mas minha empolgação tem  prazo de  validade . Um iogurte no supermercado ,em época de promoção, talvez seja mais vantajoso. Ou a tinta de uma caneta vagabunda.

Como disse antes, enjoo rápido das mulheres, aliás, de quase tudo. Vivo trocando de emprego, apartamentos, carros e não tenho paciência para digressões alheias. Ás vezes, nem as minhas  . Jonas aconselha-me dizendo que sou muito jovem para  tanto ranzinismo. Mas não dá para me transformar em alguém que não sou. Nem  faço questão de ser de outro jeito.

Voltemos ao aniversário do meu amigo.

Eu e Jonas trocamos informações e depois de cumprimentar alguns amigos, peguei  uma bebida e fui para a varanda conversar com um colega  da época da faculdade. Cinco minutos depois apareceu a morena de cabelos longos . A do olhar devastador. Ela vestia  um  short jeans,  sandálias  de salto alto  e uma blusa frente única. Fez questão de colocar os  cabelos na frente e deixar as costas nuas,  para mostrar a tatuagem da deusa têmis, imagem mitológica , representante da justiça.


Enquanto meu colega discursava, indignado, com a  atual situação do país , eu me distraía com o jogo de cintura da morena : “ por que fez questão de me mostrar a tatuagem ?” Talvez quisesse se exibir. Mostrar  que era advogada. Inteligente. Engajada em alguma causa. Direitos Humanos. Quem sabe ? Agora é moda.

Talvez quisesse me dizer que não era vazia. Sabia conversar. Mulheres que sabem conversar são problemáticas. No início até gosto de ouvi-las. mas um mês depois ficam chatas e repetitivas . Não param de falar. Desisti. Jamais sairia com uma mulher tatuada com o símbolo da justiça. Sim, já me chamaram de machista . Não ligo. Devo ser mesmo. Será  pecado ? Se for, então sou um grande pecador. E se existe mesmo o tal de céu e inferno, meu lugar no inferno  estará reservado. Com certeza ao  lado de mulheres bonitas.

Enquanto eu pensava,  meu colega falava. Eu não prestava atenção. Só balançava a cabeça. Estava numa briga invisível com a morena. Ela se aproximava , com as costas nuas e eu recuava. Não estava interessado na tatuagem dela e se antes a achava  bonita, depois de tanto se oferecer, perdi o interesse.  Dei uma de antipático. Chamei meu amigo para pegarmos uma bebida e me afastei. Mulheres oferecidas e atrevidas me causam tédio. Gosto da paquera sutil. Da troca de olhares. De sedução elegante. Sedução barata não me agrada. Ainda tentei mais duas paqueras. Uma ruiva com a pele cheia de sardas. Fumava e bebia muito. Detesto fumaça de cigarro.A  outra era magrinha, cabelinhos pretos e curtos. Muito sorridente. Trocamos alguns olhares. Mas  o relógio deu o sinal . Três da madrugada. Hora de voltar para o conforto do meu apartamento. Ligar meu ar. Esticar minhas pernas.


Saí sem me despedir. Jonas estava acostumado. Não iria reparar na minha ausência. Talvez a tatuada reparasse. Sentiu-se rejeitada. Não parava de me olhar. Passou por mim duas vezes e da segunda vez, esbarrou em meu braço, derrubando meu copo. Foi quando olhei o relógio e decidi  ir embora. Ao mesmo tempo que admiro as mulheres, me entedio fácil . Minhas amigas feministas vivem me criticando. Levei  todas elas  pra cama. Nunca me apaixonei . Até me esforcei. Fiz poemas . Rimava palavras, olhando a chuva batendo no vidro da janela. Nunca saiu nada de bom. Não tenho talento para a poesia. Talvez o tédio me paralise. Não sei. Não procuro saber.

Abri a porta do apartamento e me senti aliviado por estar seguro sem precisar ser agradável. Sim, sou fóbico. Tenho fobia a chatice. Lugares com muita gente e falatório além do suportável. Sinto-me mais confortável quando estou  sozinho. Em paz.

E assim fiquei.

Banho tomado, deitado na cama, luz do abajur acesa, pernas esticadas, peguei um livro na mesa de cabeceira, entre vários que aguardavam na fila. Escolhi um  de Freud, A interpretação dos sonhos. Estava curioso. Nos dois últimos meses  sonhava muito com castelos e bosques. Era um sonho repetitivo e chato. Acordava sufocado. Como se tivesse uma  espada na minha garganta. Talvez a leitura me desse respostas. Poderia ser um desejo reprimido . Quem sabe ? Ou uma raiva contida. Vontade de voltar à Idade Média . Teria eu vivido outras vidas ? Ou sonho não passa de sonho e não  tem explicação ?

Freud poderia me dar algum  diagnóstico ?

Dormi na terceira página. Sonhei com um castelo no alto de uma montanha. Acordei com a garganta seca.

14 de outubro de 2013

Sábado à noite

                                                      
Tarde de sábado com céu encoberto. Depois do almoço, Tavares  ligou a televisão e deitou-se no sofá. Assim que se recostou nas almofadas, Marilena apareceu na sala :
- O que vamos fazer hoje à noite ?
- Ficar em casa. – Respondeu Tavares sem tirar os olhos da televisão.
-  Ah não ! Trabalho a semana inteira, sábado quero me distrair, nada de ficar em casa.
- E o que você sugere  ?– Perguntou Tavares entediado.
- Que tal irmos ao  motel ?.- Falou cheia de expectativa .
O marido passou a mão no queixo e antes de responder, moveu os lábios de um lado para o outro  :
- Mulher tem cada uma ! Temos uma cama no quarto onde fazemos  tudo o que se faz num motel e de graça.
Marilena  respirou fundo e deu outra sugestão :
- Que tal irmos ao cinema ?
- Hoje ? Fica muito cheio e eu não gosto da turma da pipoca. Aquele saco faz barulho. É pipoca voando na minha  cabeça, gente atendendo celular no meio da sessão. Cinema sábado é programa de índio.
- Então que tal visitarmos minha irmã ? .
-  Nada disso. O clima entre ela e o Aderbal não anda nada bom. Vai sobrar pra gente.
- Nossa Tavares, tudo tem problema  ! Então vamos sair para comer uma pizza ?!
-  Melhor pedir pelo telefone. Tô com preguiça de tirar o carro da garagem e trocar de roupa.
- Então faremos o quê ?
- Você eu não sei . Eu vou ficar em casa,  no meu sofazinho, vendo minha televisão.
- Então eu vou ligar para a Adélia. Vou chamá-la para ir ao cinema.
- Vai sim. Vai  se distrair. Você sabe que eu não me incomodo.
Marilena saiu da sala e foi para o quarto telefonar. Tavares, aliviado, virou pro lado e adormeceu com a televisão  ligada.
Por volta das oito da noite,  Marilena apareceu na sala e se despediu do marido .
- Estou indo. Se tiver com fome tem sanduíche.
Tavares fingiu interesse e  comentou, displicente :
- Que horas você volta ?
- A sessão começa ás nove. Depois vou lanchar com a Adélia. Devo chegar meia-noite.
- Vai de carro ou de táxi ?
- A Adélia vai passar na esquina  pra me pegar. Deixa eu ir. Estou atrasada. Tchau.
Assim que a mulher saiu, Tavares pegou o telefone e  fez uma ligação :
- Ela já foi. Vem pra cá. Temos até meia –noite. Traga o material.
Desligou esfregando as mãos, empolgado. Foi até a geladeira, pegou uma cerveja  e tomou o primeiro gole com satisfação. A campanhia tocou. Tavares correu para atender. Era o vizinho Arnaldo  que foi entrando  sem pedir licença :
- Ô rapaz, você não sabe onde colocou as peças?
- Acho que a  Marilena sumiu com elas. Você trouxe ?
- Claro. E  eu vacilo ? Tá tudo aqui.
- Então vamos começar o jogo, que hoje lhe dou um mate pastor. – E riu com ar desafiador.
Enquanto Tavares e Arnaldo iniciavam a partida de xadrez, Marilena entrava no carro de Serginho, filho de Arnaldo :
- Tem certeza de que seu pai não desconfia de nada?
- Tenho. Ele é muito desligado!
- Será que ele  foi  lá pra casa jogar xadrez com o Tavares  ?
- Com certeza. Falou na revanche a semana inteira.
Riram com ar de cumplicidade. Marilena beijou Serginho, carinhosamente  :
- Vamos nos divertir muito hoje. Em qual motel nós vamos ?
- Que tal naquele com cadeira erótica ?
- Adoro. Ele tem aquela  cascata colorida, que me faz sentir uma estrela em hollywood !
- Trouxe o  talão de cheques ?
- Claro, Serginho. Não precisa se preocupar.
- E a Adélia ? Vamos pegá-la na esquina de casa ?
- Não, ela está esperando no lugar de sempre. O marido é desconfiadíssimo.
Serginho pigarreou,  se ajeitou no banco do motorista, deu uma olhada no espelho e depois de mexer nos cabelos, pensou que, para os seus vinte e dois anos de idade, passar a noite de sábado com duas coroas fogosas , era muito excitante. Embriagada pela promessa de momentos de prazer, Marilena comentou com ar sonhador olhando pela janela :
- O tempo está melhorando. Acho que amanhã vai fazer sol.

Serginho sorriu  e ligou o rádio. A voz da cantora Ana Carolina tomou conta do ambiente.  Seguiram acompanhando a música  em pensamento, excitados com a idéia de viverem , mais uma vez, o doce sabor do pecado.

5 de outubro de 2013

Os seios

A última vez que Olavo olhou no relógio ia dar cinco horas da manhã. Sete horas, teria que acordar para trabalhar. Rolou na cama a noite toda. Não conseguia parar de pensar nos seios de Elisa. Elisa era a irmã mais nova de sua namorada, Roberta. A moça de vinte anos, além de bonita, sorriso perfeito, olhos verdes e longos cabelos loiros, tinha os seios rijos. Os bicos pareciam luzes coloridas piscando na direção dele. A visão daqueles doces e convidativos seios, o deixou alucinado. Ele não conseguiu mais se esquecer do dia  em que olhou aqueles dois bicudos faróis prontos para serem sugados.
Era uma sexta-feira enluarada. Olavo  estava com Roberta no restaurante quando Elisa apareceu ao lado de uma amiga, vestida com uma blusa branca transparente, sem sutiã. Depois da cena que o deixou babando, não conseguiu mais comer, dormir, nem trabalhar . O par de seios de Elisa tornou-se uma obsessão na vida dele. A relação com Roberta ficou em segundo plano. Ele só pensava em ver novamente Elisa e seus lindos seios.
Tornaram a rever-se uma semana depois, numa festa em  família. Ele não conseguiu tirar os olhos dos seios da irmã de sua namorada. Roberta o pegou várias vezes olhando na direção dela. Não desconfiou . Ou era muito desligada ou confiava muito nele. O fato é que Olavo sonhava e tentava arrumar uma maneira de, ao menos uma vez, tocar nos seios convidativos de Elisa. Sabia que se isso não acontecesse, seu desejo aumentaria cada vez mais. Tinha medo de enlouquecer. Enfartar. No trânsito,  quase bateu no carro da frente uma vez indo para a  academia. Estava tão distraído, pensando nos seios de Elisa,  que não reparou o sinal fechado.
Tinha que arrumar um jeito e urgente,  de tocar nos seios da cunhada. Ao menos nos bicos que o submetiam a verdadeira tortura sensual. Porém, não podia pedir  para deixar ao menos, acariciá-los sem maldade. Corria o risco de levar um tapa e ainda ver seu namoro com Roberta terminar. Amava Roberta, mas os seios de Elisa, o levavam para mundos cheios de luxúria, prazer e dor. O desejo era quase que,  incontrolável.
 A obsessão era tanta  que chegou a consultar um amigo psicólogo. O amigo aconselhou-o a ler um livro de culinária quando pensasse nos seios da cunhada. Aprendeu a fazer muitas receitas. Fez algumas e convidou Roberta para experimentar. Ela estava adorando o lado cozinheiro de Olavo, mas apesar das receitas, do seu dom para a culinária, a distração não obteve resultado. Imaginou , certa vez, estar servindo os seios de Elisa,  rodeados de abacaxi em calda. 
Assustado, acreditou que seu caso era espiritual. Procurou então, um Pai de Santo. Pediu conselho. A entidade riu dele. Ninguém o levava a sério. Só ele poderia se salvar dele mesmo. Só ele se entendia . Sentia-se sozinho, em meio a milhares de seios. 
Desesperado, teve  uma  ideia simples, mas que talvez, fosse eficaz : levou Roberta e Elisa para um banho de mar . De biquíni , Elisa era ainda melhor. Os seios dela gargalhavam dentro do sutiã. Passou mal ao vê-los. Precisava tocá-los, urgentemente, ou ficaria insano. Estava chegando perto da loucura.
Imaginava seu futuro dentro de um sanatório, gritando desesperado pelos seios de Elisa.
Na praia , colocou seu plano em ação. Chamou a cunhada para um banho de mar. Aproveitou a onda e empurrou-a na água. Fingindo um acidente, conseguiu tirar-lhe o sutiã. Finalmente, ali, na água, entre uma onda e outra, tocou nos seios apetitosos da cunhada. Por segundos chegou ao paraíso. Fingiu-se de inocente, desculpou-se pelo acontecido, depois ajudou-a a colocar o biquíni. Elisa voltou para a  areia, contando para a irmã que ficara sem o sutiã dentro da água. Não contou, porém,  que Olavo quase arrancou-lhe os seios fora .
No final da tarde foram pra casa. No carro, Olavo dirigia em silêncio. Quando olhava pelo espelho retrovisor, sentia o olhar cúmplice de Elisa.  Será que ela havia descoberto que ele tirara-lhe o sutiã de  propósito ? Contaria para Roberta ?
As irmãs saíram do carro ao mesmo tempo. Roberta despediu-se de Olavo com um beijo provocante. Mas ele só pensava nos seios da cunhada. Deu partida no carro, mas logo desligou o motor. Elisa se  aproximou e pediu para Olavo  abrir o vidro . Pegou no banco de trás uma sacola plástica que esquecera. Antes de partir, olhou para ele e deu um sorriso. Um sorriso malicioso. Um sorriso de quero mais. Cúmplice.
Aquele sorriso deixou Olavo em estado de choque. “ Será que ela queria nova rodada de massagem nos seios ?” E assim, cheio de dúvidas e com o tesão gemendo no  corpo, ele acordou sete horas para trabalhar . Dormiu somente duas horas. Os seios de Elisa eram os responsáveis por sua noite insone e insana.