12 de março de 2012

A cueca do doutor Adolfo

                                     
Assim que Irene entrou no escritório, Rita resmungou :
- Doutor Adolfo já perguntou por você duas vezes.
- Ai meu Deus ! E o humor  ?
-   Péssimo .
Bateu na porta, pediu licença e entrou. Doutor Adolfo navegava pela internet e quando a viu, levantou a cabeça e franziu a testa :
- A senhora está atrasada, dona Irene.
- Desculpe, é que meu marido....
- Tá desculpada. Próximo atraso leva uma advertência.
- O que o senhor deseja ?
- Quero que a senhora  troque essa cueca  por um número menor.
A secretária pegou a roupa íntima  e saiu da sala ofendida com o pedido.
Ficou um tempo olhando para o nada.  Rita sacudiu Irene tirando-a  do transe:
- O que houve? Você está pálida.
- Acredita que doutor Adolfo  pediu para  trocar uma cueca ? Não ganho pra isso !
- Quer manter o emprego ? Troca e não reclama. Aproveita e coloca pimenta no fundilho  .
- Pó de mico é melhor !
Riram, tomaram café e foram preparar os relatórios. O excesso de trabalho fez Irene esquecer do pedido inusitado . Na hora do almoço demorou no restaurante e não conseguiu fazer a troca.  Prometeu a si mesma que depois do expediente passaria na loja. Saiu do escritório depois das nove. Na volta pra casa, adormeceu na condução. Quando chegou, encontrou o marido com a cara fechada :
- Isso são horas, Irene ?
Com dor de cabeça , ela  abriu a bolsa para pegar um comprimido e a cueca  caiu no chão. Cardoso pegou :
- Uma cueca ? O que significa essa pouca vergonha ?
A mulher  ficou sem fala. Arregalou os olhos e  gaguejou.
- Anda, estou esperando a explicação !
Contou a verdade. Cardoso duvidou:
- Acha que sou burro ? Chega onze da noite  com uma cueca na bolsa e quer que eu acredite nessa mentira ?
- Tá duvidando ? Então liga para o celular do doutor Adolfo.
- Vou ligar.
- Liga. Amanhã tô na rua e quero ver quem vai pagar as contas.
Diante da ameaça , Cardoso desistiu . Passou a andar de um lado para o outro revirando os olhos. Precisava de uma prova de que a mulher falava a verdade.
Enquanto ela  tomava banho, ele  sentou-se  no sofá e ficou balançando  as pernas. Pensava em uma solução . Quando a esposa vestiu a camisola  e colocou a janta na mesa, Cardoso gritou  :
- Já sei ! Você vai desfilar com essa cueca pra mim.
- Tá maluco ? E como vou trocá-la  depois ?
- Se você não desfilar, vou achar que é mentira.
A mulher  obedeceu . Desfilou para o marido , que olhava cinicamente. Quando pensava em parar , ele debochava e pedia :
- Mais uma voltinha. Só mais uma.
- Tô cansada.
- Continua  !  Me excita  saber que o cuecão é do seu chefe. Só mais uma voltinha.
Foram mais de cinqüenta voltas. Quando Cardoso adormeceu, Irene estava exausta. Deitou-se vestida com a cueca. Dormiu pesado. Roncou.
Acordou atrasada. Pulou da cama . Não tomou nem café. Colocou a cueca  na bolsa e saiu apressada. Chegou antes do doutor Adolfo. Dez minutos depois, o chefe passou por ela e nem deu bom dia . Irene rezou para que o homem não lembrasse da troca.  Pegou o terço na bolsa e resmungava  baixinho quando ouviu o grito :
- DONA IRENE, venha até aqui , já !
Assim que entrou na sala com ar desanimado , doutor Adolfo deu um sorriso irônico :
- Trocou ?
- Desculpe. Houve um problema. Mas  prometo que na hora do almoço...
- Não precisa dizer mais nada. Me dá ela , AGORA !
- Doutor Adolfo,  vou trocar...me dá uma chance.
- AGORA, dona Irene !
Pegou a cueca, entregou ao chefe e saiu da sala. Chorou baixinho . Rita  tentava consolá-la. Foi chamada de volta. Estremeceu. Ficaram trancados durante uma hora.  Irene saiu ajeitando os cabelos. Rita perguntou curiosa  :
- E aí ? Demitiu ? Levou sermão ?
Irene pegou um espelhinho na bolsa, passou  batom e respondeu descontraída :
- Não. Recebi um aumento. Doutor Adolfo é um homem muito carente.

1 de março de 2012

As joias da tia Zélia

Comia bolinhos de chuva  na cozinha, quando a campanhia tocou. Minha esposa  correu para atender.
- Quem é,  Dolores ? – Gritei da cozinha quase me engasgando com o bolinho e engolindo o último gole de  café.
- Vem aqui na sala.
Com o coração aos pulos, quase derrubei o café  : “ O que teria acontecido ?”.  Fiquei surpreso  ao ver em  pé, no meio da sala, a  tia da minha mulher.  A velha, que se chamava Zélia,  estava  com cara de sabiá depois da chuva, acompanhada de uma mala enorme. “ O que aquela  velha sebosa fazia  na minha casa ?  Contrariado,  tomei conhecimento de que ela ficara viúva  e passaria uns  tempos no  quarto de hóspedes. Não gostei da notícia, mas fazer o quê  ?  Seria desumano colocá-la para fora de casa.  Era da família  Mas eu não gostava dela. Tinha cara de bruxa e ainda um bigodinho que insistia em conservar . O  cheiro insuportável  de naftalina que exalava dala, me enjoou. Perdi até o apetite. Aquela aparência desleixada me causava repugnância.
Maria Dolores acomodou a tia no quarto de hóspedes. Em seguida foi para a cozinha esquentar  a sopa de legumes para o jantar.   Durante  a refeição  não conversamos. Nem toquei na comida direito.  A velha parecia esfomeada. Tomou dois pratos  da sopa   e devorou as torradas. Antes das onze, ela  deu  boa noite e seguiu  para o quarto. Perguntei  a Maria Dolores  até quando teria que aturar  a tia dela  .  Chateada com minha má vontade , ela explicou que a tia  precisava ficar longe dos   três  filhos.  Viúva há dois meses,  os filhos descobriram que o pai  deixara uma gorda pensão , além de joias,  para ela. Meus olhos cresceram. Queria saber qual o valor da fortuna.  Maria Dolores não sabia e  me respondeu  “ que  nem  queria  saber”.   Ela apenas desconfiava  que era muito dinheiro.  Já que a tia  queria ir para Portugal , se livrando de vez, do assédio dos filhos . “ Vou verificar  até  que ponto a história é verdadeira” .  – pensei  intrigado
O dia amanheceu ensolarado. Depois de tomar café, fui molhar as plantas. A velha  apareceu na varanda com uma xícara de café na mão e com o mesmo cabelo ensebado a  enfeiar-lhe  o rosto esquelético. Aproveitei para sondá-la e perguntei até quando ficaria na minha  casa. Conversamos amistosamente  e ela caiu na minha armadilha . No final da conversa,  me pediu um favor . Precisava   guardar as joias e o dinheiro que o marido deixara, em lugar seguro . Prometi  levá-la ao  banco no Centro da Cidade,  no dia seguinte. Expliquei  que  o gerente era meu amigo . Naquele momento , minha intenção era ficar com as joias.  Eu pagaria minhas dívidas e se sobrasse, gastaria com bebidas e mulheres. Empolgado, fiz planos otimistas.

 Depois do almoço fui até a cidade procurar um amigo para me ajudar a simular um assalto quando eu estivesse levando  a velha ao banco.  Seria durante o percurso. Sem violência. Ele teria apenas que pegar as joias e o dinheiro.  O revólver poderia ser de mentira. Eu iria pela estrada mais longa e deserta.  Meu amigo topou na hora. Roubar a velha seria mais fácil do que pegar doce de criança – me garantiu.   Cheguei  em casa  com falta de ar. Meter  a mão numa boa grana  me deixou  excitado.

Falei pra velha que no dia seguinte poderíamos ir ao banco. Maria Dolores não desconfiou de nada.   Jantamos em silêncio. Comecei a ficar abafado e percebi  um forte cheiro de vela vindo da cozinha. Odiava cheiro de vela. Lembrava-me  de cemitério. Do enterro do meu pai. Do acidente quando eu era criança. Do sangue saindo dos olhos dele. Da gritaria. Dele estendendo as mãos e  me pedindo socorro. “ Quem acendeu  vela aqui em casa ? “ . – Perguntei  agoniado.
- Tá doido , homem ? Que vela ?
-Eu tô sentindo o cheiro . Vem da cozinha, Maria Dolores.
Zélia  fez cara de espanto , limpou a boca com guardanapo e se dirigiu para o quarto, em silêncio. Rodei a casa toda.  Nenhuma vela acesa. Fui dormir com meu nariz ardendo. Acordei durante a madrugada com falta de ar. Lembrei  das joias. “ Não é possível que logo agora que eu vou meter a mão numa boa grana , vou  ter um troço.”
Amanheci  enjoado e indisposto. Com vontade de ficar na cama. Mas já tinha combinado com o meu parceiro e ás  três  da tarde,  ele estaria me esperando no local marcado.  A ansiedade tomou conta de mim. Passei a manhã olhando o relógio. Na  hora do almoço nem toquei na comida. Por volta de três horas, enquanto  pegava as  chaves  do carro, vi a  velha ensebada separando  uma valise “ é lá que estão o dinheiro e as joias” – pensei. Chamei-a para entrar no carro.
Dei um beijo em Maria Dolores e abri a porta. Minha esposa segurou minhas mãos :
- Tem certeza que não quer que eu vá ?
- Resolvo tudo num instante  . Antes das cinco estamos de volta.
Dirigia em silêncio. Um pouco tenso.  De vez em quando olhava para o colo da velha ensebada e a  via segurando a  valise com as duas mãos. Peguei o caminho mais longo. A estrada estava vazia. Começou a chover. Diminuí a velocidade. A pista estava escorregadia. Novamente o cheiro de vela. Agora dentro do carro. A velha  estava com a respiração ofegante. De repente um homem apareceu na frente do carro.  Eu conhecia aquele homem.  Era o marido da velhota. “ Mas o velho não morreu  ? O que ele fazia ali ?“. Meti o pé no freio. Estava confuso. O carro rodou na pista e capotou.  Não conseguia me mexer. Não sentia meu corpo. O cheiro da vela. O sangue escorria pelos meus olhos.  Fumaça . Muita fumaça. Desmaiei.

Acordei  no hospital. A Tia da minha mulher estava  vestida de preto, com os óculos na ponta do nariz me olhando.  “ Cadê Maria Dolores ? “.  Perguntei, tentando  me lembrar do que acontecera. A velha me respondeu  secamente : “ Morreu”.  “
- Morreu ?  Como ?
- Quando soube  do acidente,  teve um ataque cardíaco. Ainda ficou internada uma semana na UTI,  mas  não  resistiu.
Fiquei sem saber o que pensar.  Tudo me pareceu um grande pesadelo. A velhota  me deu um sorriso macabro, virou as costas e saiu do quarto. Não consegui  dormir de noite.  Virava de um lado para o outro . Só me vinha na cabeça  a cena do acidente. O velho na estrada, depois o carro rodando na pista, em seguida ,  capotando. Não sentia minhas pernas.  No meio da noite a enfermeira veio até  meu  quarto, me aplicou uma injeção e eu dormi. Passei  mais um mês  no hospital. Quando anunciaram que eu ia para casa, fiquei  surpreso :
- Não vou mais  andar ? Vou   ficar pra sempre na cadeira de rodas ?
- O senhor tem sorte de ter uma tia como Dona Zélia. Ela vai lhe ajudar a superar  esse momento dificil. – disse a enfermeira com meiguice.
- Ela não é minha tia ! – gritei apavorado.
A velha  ensebada  entrou no quarto sorridente :
- Você está paralítico, meu rapaz,  e quem vai  cuidar de você, sou eu. Quando chegarmos na sua casa você terá uma surpresinha.

Aquelas palavras  me soaram como ameaça. Os enfermeiros me ajudaram a entrar num táxi.  No banco da frente   a cadeira de rodas dobrada, me esperava. Fiz a viagem chorando pra dentro.  Quando cheguei  em casa, senti um nó no estômago. Quem me esperava sorridente era meu parceiro. Aquele mesmo  que ia roubar as joias e o dinheiro, quando eu simulasse um problema de motor no carro e parasse na estrada. O filho da puta  ajudou a velha ensebada a empurrar a cadeira até a casa. Não entendi nada.

Os dois me largaram na sala, jogado em cima da cadeira de rodas, e foram pra cozinha. A velha ensebada foi preparar  alguma coisa para o jantar. Ficaram de segredo na copa, e eu olhando para as paredes do corredor.  Enquanto ela  arrumava os pratos , notei um par de  brincos de rubi brilhando nas orelhas dela . "Será que ela  e  o  filho da puta mataram Maria Dolores ?  E eu ?  Serei  o próximo ?"

Na hora do jantar,  novamente senti  um  cheiro de vela. Vinha da minha roupa.  Com o estômago embrulhado, pedi  ao  ex- parceiro, era no que ele se transformara  naquela altura dos acontecimentos,  que empurrasse minha cadeira até o banheiro.
Percebi  pelo espelho do corredor,  que ele  estava com  um  facão na cintura.  Quando me aproximei  do  vaso sanitário cheirando a mijo, vomitei o pouco que tinha no estômago.

15 de fevereiro de 2012

Dia Estranho

Tudo aconteceu numa  quinta-feira, quando fiquei sozinho no escritório. Precisava entregar um projeto com urgência no dia seguinte, antes do almoço.

Olhei o relógio mais uma vez : onze da noite. O prédio estava vazio. Os andares solitários e o silêncio, me deixaram melancólico. Como companhia , apenas a garrafa de café. O vigia da noite, seu Antonio, estava na portaria vendo televisão. Interfonou duas vezes para saber se eu precisava de alguma coisa.  Eu trabalhava numa sala de fundos, no vigésimo terceiro andar. Deixei a janela aberta. Gostava de  respirar o ar fresco  da noite. O vento de outono  me fazia lembrar de  Elisabeth. Era ficar  sozinho para lembrar dela. Do cheiro. Dos cabelos . Da boca carnuda.

Lembranças. Faltando um mês para o casamento, descobrimos que ela tinha  um câncer no pâncreas. Dois anos de luta. A doença venceu.  Ela morreu num dia triste e chuvoso de inverno. Inconformado, espalhei os retratos dela pela casa. Na minha mesa no escritório, coloquei três porta-retratos. Nos três, estávamos abraçados, lembrando os dias felizes.

Não dizem que os mortos podem voltar ?  Eu tinha esperanças de vê-la novamente. Nosso amor era muito forte.

Antes de fechar o escritório,  me sentei no sofá,  para admirar em paz, a foto de Elisabeth. Peguei a do nosso passeio de barco.

As lembranças chegaram com força. O vento  frio da noite, aumentou . A persiana balançou, quase entortando. Fiquei esperançoso. "Será que finalmente ela apareceria pra mim ?"  Senti então,  o perfume de Elisabeth. Percorri a sala com o olhar. Ela estava por perto. Minhas narinas farejaram  o cheiro adocicado da mulher amada .

Ainda amava Elisabeth. O corpo ausente. Os momentos vividos. Os  não vividos. Nossas lembranças  felizes bailavam todos os dias na minha mente." Uma obsessão", dizia um amigo. Talvez fosse. O fato é  que, naquele momento, eu a sentia no ambiente. Tive vontade de beijá-la. Tocá-la. Fazer amor . Embora minha mente se esforçasse, eu não conseguia tê-la de novo em meus braços. Mas agora eu sentia o perfume de Elisabeth. Eu tinha esperança. O vento aumentou. Fechei a janela. Desci a persiana e quando voltei para o meio da sala,  não senti mais o perfume de Elisabeth .  Olhei para a minha mesa.  A caneta que ela me deu, presente de aniversário, rolou pela mesa e caiu no chão.

Ela estava ali. Mas não conseguíamos  uma comunicação direta.  Na  foto em cima da  mesa, ela sorria . Fiquei desnorteado. Fui até o banheiro e coloquei a cabeça debaixo da pia. Precisava me refrescar.  Ainda fiquei  uns quinze minutos esperando algum sinal . Não ia acontecer mais nada. Eu sabia. Fechei a sala, peguei o elevador e desci . Quando cheguei no saguão , me assustei . O vigia estava caído  no chão , com os olhos arregalados. Morto. O sangue escorria da boca.

Um policial se aproximou. Mostrei meu crachá. Ele disse que eu era um sujeito de sorte. Se eu tivesse descido meia hora antes, podia estar morto junto com o vigia.

Um mendigo viu a cena . Dois homens entraram no prédio quando seu Antonio abriu a porta para  o gato sair. Ele ainda  tentou impedir a invasão, empurrando a porta. Os assaltantes foram mais ágeis.  Houve luta corporal e ele levou um tiro.

Impressionou-me o acontecimento. Desceria  no momento da confusão.  Desnorteado pensei que o perfume de Elisabeth talvez tenha salvado minha vida. Elisabeth salvou a minha vida.  A partir daquele estranho dia, entendi que a mulher amada,  me queria vivo. Cheguei  no meu apartamento, recolhi todas os retratos dela e coloquei num baú. Precisava recomeçar.

Dois meses depois conheci minha esposa num festa. Estamos casados há algumas semanas.
O nome dela ?
Elisabeth.

7 de fevereiro de 2012

A filha do verdureiro

                                                     
Neidinha acorda angustiada no meio da madrugada e chama pelo marido :
-Aderbal, acorda Aderbal..me responde uma coisa !
- O que houve ? Incêndio ? A casa foi assaltada ? As crianças...
- Você me trai ?
-  O quê ?
- Ela grita : VOCÊ TEM AMANTE ?
- Que horas são ?
- Três .
-Você me acorda três da matina  com essa pergunta ? Levanto  6 para trabalhar.  Boa noite.
Vira para o lado e coloca o travesseiro no ouvido.
Neidinha  sacode Aderbal :
- Acorda . Tive um pesadelo. Você beijava outra mulher.
- Amanhã a gente conversa. Não enche, tô com sono.
- É a filha do verdureiro ?
Aderbal perde a paciência e aumenta o tom de voz  :
- Aquela morena gostosona ?
- Sabia . É ela não é ? Sabia ! Olha que voz empolgada. Só porque falei dela.
Aderbal não responde. Respira fundo e adormece.
Durante o café da manhã, Neidinha fala do pesadelo e questiona o marido mais uma vez :
- Você  e a filha do verdureiro estão de caso, né ?
- De novo ? Você tá precisando trabalhar para deixar de enfiar merda na cabeça.
- Me diz. Só me diz. Não gosto de ser enganada.
Aderbal se aborrece. Sai de casa batendo a porta. Neidinha fica sozinha e pensa : “ é ela. Quem cala , consente. “
Antes do almoço vai no hortifruti e de longe observa Rosilene, a filha do verdureiro. Uma raiva toma conta de Neidinha . Quando vê Rosilene falar ao telefone, imediatamente liga para o celular do marido. Ocupado. Neidinha tem certeza que Rosilene fala com Aderbal. Movida pelo ciúme vai até o supermercado onde trabalha Ribeiro, o noivo de Rosilene :
- Como vai dona Neidinha ? Em que posso ajudar ?
- Sua noiva e meu marido são amantes.
- O quê ? – Ribeiro espantou-se. Acreditou que estivesse ouvindo mal.
- Não se faça de surdo. Você entendeu. E precisa tomar uma atitude.
- Como a senhora sabe? A Rosilene é fiel... um anjo de mulher.
-  Anjos não existem.  Não confie em mulher de rosto angelical. É tudo fingimento. São as piores. O rosto angelical é para enganar trouxas como você.

Quase convence  Ribeiro que a noiva o trai. Vai embora satisfeita. Em casa, depois de colocar as crianças para o colégio, conversa com a amiga Estelita ao telefone :
- Me paga. Descobri tudo. Sexto sentido de mulher.
- Tem certeza ?
- Absoluta. O pesadelo foi claro. Um aviso.
- E esse Ribeiro vai fazer alguma coisa ?
- Eu espero que tome uma atitude.
Em casa Neidinha não toca mais no assunto. Aderbal  estranha pois conhece o temperamento da mulher. Por outro lado,  sente-se aliviado das cobranças.
Neidinha  prefere investigar por conta própria. Persegue. Vigia. Quando o marido sai para trabalhar e ela vê Rosilene sair do hortifruti arrumada, imagina os dois juntos. Com o coração apertado e envenenado pelo ciúme doentio  pensa : vai se encontrar com meu marido.
Neidinha volta a  procurar Ribeiro :
- Já decidiu o que fazer ?
- A senhora pode estar enganada.....
Para não deixar dúvidas, mente :
- Vi com meus próprios olhos. Aquele safado entrou no motel com Rosilene.
Estavam aos beijos no carro.
Acredita na própria mentira e começa a chorar.
Os lábios de Ribeiro perdem a cor. Sente como se a vida o abandonasse por alguns segundos. Ele ainda tinha esperança de tudo ser fantasia da cabeça de Neidinha, mas diante daquele choro , não tem dúvida.
Neidinha não dá mais  sossego a Ribeiro. Todos os dias vai  ao Supermercado desafiar-lhe :
-Não vai fazer nada ? Você é um merda mesmo ! Um corno manso !
Merece  o par de chifres !
 Neidinha chegava ao exagero de dar  dinheiro para os meninos de rua passarem em frente ao supermercado gritando :
- o Ribeiro é corno manso ! O chifre do Ribeiro está crescendo...o chifre do Ribeiro está queimando....

Os meninos se divertiam e ganhavam uns trocados. Ribeiro ficava furioso. Além de ficar  conhecido como corno estava ameaçado de demissão por causa da algazarra das crianças em frente ao supermercado. Resolveu mostrar que não levava desaforo para casa.

Enquanto isso o telefone toca na casa de Neidinha , era a amiga Estelita :

- Descobri Neidinha ! Fonte quente. A filha do verdureiro é amante do gerente do supermercado onde trabalha o noivo. O Aderbal é fiel a você. Te ama.

Neidinha treme dos pés a cabeça :
-Tem certeza ?
-Tenho.

Neidinha desliga  o telefone e corre para  o  supermercado. Precisa desfazer o equívoco. No caminho , em frente ao hortifruti , encontra Ribeiro com uma arma na mão ameaçando Rosilene.  A jovem desaba em choro ajoelhada aos pés do noivo :

 - Eu te amo ! Fui fiel a você todos os dias da minha vida ! Você foi meu único homem !

- Vagabunda. Cínica.Não acredito em mulher com rosto de anjo  !

Num gesto impensado, Neidinha se mete na frente de Rosilene :

- Ela é inocente. Não mata !

Neidinha recebe o tiro que era para a filha do verdureiro.
Ribeiro se joga no chão e dá um urro delirante:
- O que é que eu fiz ? Matei uma mulher ! Sou um assassino cruel.
Antes de ir preso é linchado pela multidão que se aglomera em frente ao hortifruti.

Rosilene faz questão de ir ao enterro de Neidinha. Na volta para casa, Aderbal oferece uma carona. São observados de longe por Estelita. No caminho Aderbal e Rosilene trocam olhares eróticos. 

( O conto faz parte do livro de minha autoria " Só as feias são fiéis)

20 de janeiro de 2012

A fuga

               

Passava das quatro da madrugada quando desligou o computador. Nos últimos meses sua vida transformara-se num tormento. Não definia mais o que era real e o que era  virtual. Não conseguia dar conta dos mais de três mil amigos das redes sociais. Passava o dia tentando ser simpático a todos que lhe mandavam mensagens.

Tinha mais de 50 namoradas virtuais. No início, até  era   divertido, alguns meses  depois,    sentiu-se enfastiado. Saía com mulheres diferentes, todos os dias.  Não conseguia  satisfazer a sede de amor feminina. Era muita candidata  mandando SMS. E-mails.   Xingando-o  nas redes sociais.  Por vezes, acreditava ter perdido a capacidade de amar.  A vida virara do avesso.  O chefe o demitiu. Não conseguia entregar os projetos dentro do prazo.

 Desempregado, a obsessão virtual aumentou.  Dormia de madrugada.  Acordava  cedo e ligava o computador.  Precisava saber das novidades.  Ficaria apenas uma hora. Pensava. Só que, falava com um , com outro, e quando olhava o relógio , era  hora do almoço. Comia pouco.  Esquecia   de jantar. Muita coisa para fazer no mundo virtual. Ler as notícias. Selecionar as mais importantes. Escutar música. Dar opinião nos assuntos mais polêmicos do momento.  Responder aos amigos.

A mãe reclamava que ele sumira da casa dela . Bebia uma cervejinha na frente do computador.  Ir ao banheiro era um sacrifício. Segurava até o último momento. Prendia a respiração. Culpa da ansiedade. Não podia perder tempo.   Mais de cem e-mails para responder. A cabeça girava.  O  msn piscava demoníaco . Até a mãe pediu autorização .

  Reencontrara , nas redes sociais, amigos de infância. Do mesmo prédio. Colégio.  Um destes amigos, coleguinha de turma,  um branquelo, que usava aparelho nos dentes, atualmente casado, pai de  dois meninos,  queria saber  se  ele colara na prova de português sobre análise sintática. Ele foi o único a tirar dez na turma. Não lembrava.  Faria  alguma diferença lembrar   ? Teve vontade de  gritar.  Sentiu pela primeira vez, que precisava se desligar do mundo .  Planejara milimetricamente  a liberdade  .  Morreria virtualmente. Com o dinheiro da indenização,  viajaria para um lugar distante. Com dificuldade de acesso a internet .  Adeus Bill Gates.  Steve Jobs.  Zuckerberg . Branquelos e namoradas carentes. Queria reencontrar a identidade. Sentir novamente,  o gosto da liberdade.

2 de janeiro de 2012

Confissões de uma mulher moderna

Lua cheia de uma noite de verão. As luzes da rua multiplicaram-se tomando formas monstruosas. Minha vista embaçou. A azia queimou minha garganta. Abri a porta do carro e vomitei . Acabara de ser abandonada no altar. Casa montada e sonhos desfeitos. Auto-estima em frangalhos. O noivo ? Fugiu com a prima. A notícia veio ao som de My Way no celular do padrinho .

Duas semanas depois, tentei matá-lo quando me procurou para devolver as chaves do apartamento. A faca de pão com a lâmina brilhando, olhava-me convidativa em cima da mesa . Meu irmão chegou na hora impedindo-me de me tornar uma assassina.


Histérica , minha mãe me mandou para um analista. Com três meses de tratamento, suspendi as sessões. A musculação substituiu Lacan. Passei a freqüentar baladas e bares da moda. Virei predadora. Homem só para sexo ocasional. Uso e sou usada. Conquisto e jogo fora. Homem não ama. Deseja. Sente tesão.


Aprendi a me excitar com o jogo da conquista. Dá poder . Faz bem ao ego. Massageia a auto-estima. Seduzo-os com promessas e fantasias sexuais. Satisfeita a vontade, descarto-os. O descompromisso me encoraja. Quando não dá certo, só deixei de ganhar alguns momentos de prazer, recuperados em outra transa. Saio no máximo três vezes. Não crio vínculos.


Adoro tirar foto dos homens que levo pra cama. Depois coloco-as em um painel e escrevo o nome e a data da saída debaixo das fotografias. Já tenho mais de cinqüenta na galeria. É meu hobbie. Fazem parte da coleção solteiros, casados e bis. Não tenho medo de perder, porque não preciso ganhar. O que vale é o momento. Sou livre. Não me preocupo se vai ligar no dia seguinte. Não peço e nem dou telefone . Vivo o presente, a noite e o mistério que ela me proporciona. Se penso muito num homem , no dia seguinte ligo pra outro. É uma ótima tática.


Adoro cafajestes. Não se prendem a ninguém. São machistas, sempre disponíveis. Me divirto com a idéia estúpida que têm a respeito das mulheres. Na cama gostam de dar tapinhas. Batem. É divertido. Excita. Fazem o que eu peço.


Detesto mulheres medíocres que desfilam ao lado de seus maridos infiéis, exibindo-os como mercadoria. Minhas amigas viraram ex. Não aceito recrimininações. Mulheres sonham com impossibilidades . Criam expectativas e se frustram. Acreditam em homem ideal. Não existe.
Minha única amiga é gay. Nunca fomos pra cama. Ela sabe o quanto gosto de homem . Do cheiro. Da voz e das mãos firmes em meu corpo. Mas nada impede que um dia eu tente outras possibilidades. Sou aberta. Não tenho preconceito. Meu sonho é ter dois
machos viris dividindo os lençóis. Disputando-me.


Os homens não são iguais. Alguns são irritantemente metódicos. Outros, perdidos. Existem os inseguros. Os neuróticos. E até os românticos que acreditam em mulher perfeita. Cada um me leva ao prazer de maneira diferente . São poucos os que conhecem o corpo de uma mulher. Alguns não sabem tocá-lo.


Já saí com tímidos que se revelaram ótimos de cama. Com fanfarrões que na hora H broxaram. Culpa da bebida. Alguns têm fetiches. Outros se excitam quando faço striptease e gozam sem me tocar. Entram no jogo da sedução. Comem com o olhar. Os maridos insatisfeitos são burocráticos.


Na hora de transar já fui bailarina, odalisca., melindrosa, jogadora de tênis, estudante. Amo inovar.


Uma colega de trabalho, que reclama da falta de sintonia sexual no casamento, diz que penso como homem e vingo as mulheres. Questão de estilo. Sou bem resolvida.
Minha mãe me chamou de prostituta. Não sou prostituta. Não vou pra cama por dinheiro. Não tenho clientes. Tenho amantes. Sou moderna. Cabeça aberta. Preciso espantar o tédio. Sexo ajuda. Mexe com a adrenalina. A cada homem novo, uma história diferente. Encontrei uma maneira de ser feliz. Felicidade é um estado de espírito.


Dez da noite. Hora de me arrumar. Vestido justo, perfume doce, maquiagem suave e salto agulha. Viver é muito sem graça. Detesto rotina.


Antes de sair verifico se deixei meu antidepressivo na mesinha de cabeceira. É a primeira coisa que procuro quando volto pra casa. Não vivo sem ele.

26 de dezembro de 2011

Lucro

Deixei o homem que eu amava partir.
Talvez nosso amor fosse tão grande
que não cabia nele.
Homem simples. Do interior.
Semblante sereno. Gestos suaves.
Nosso encontro foi breve e intenso.
A existência parou para que nos amassemos.
Depois de alguns meses, ainda sinto o cheiro dele
na minha pele. Minha boca ainda o possui.
Ele ainda está dentro de mim. Em todos os sentidos.

Vejo-o todos os dias diante dos meus olhos , quando acordo.
Lembro do sorriso. Da voz. Do olhar faminto em meu corpo.
Da pele macia. Das mãos bem cuidadas.
Quero que ele seja  o último amor da minha vida.
Agora o que vier é lucro.

21 de dezembro de 2011

A descoberta

Escovou os cabelos e  colocou o batom. Não podia faltar o rimel. Passou duas vezes. Um lápis preto daria o tom.  Pegou a melhor lingerie. Passou perfume francês. Olhou no relógio da estante. Dez da noite. Faltava pouco. O coração disparou. Abriu a janela da sala e deixou o ar entrar. Respirou fundo. Aquela brisa que vinha da praia era revigorante. Queria tudo perfeito. Correu até a geladeira. Tirou o vinho do freezer. As frutas estavam em ordem. Esfregou uma mão na outra. Sentiu um frio gostoso no estômago. Seria a primeira vez. O interfone tocou. Correu para atender. Esperou a campanhia tocar. Uma . Duas vezes. Deixaria tocar a terceira. Adorava suspense. Abriu a porta. Olhou uma vez. Duas. Com a voz decepcionada reclamou :
- Encomendei na agência um rapaz alto, moreno, olhos castanhos, boca carnuda. Você é alto,  branco, de olhos claros, traços finos. Sim, tem um corpo bonito. Deixa eu ver. Tira a camisa.
- Aqui ? Não dá para eu entrar no  apartamento ?
- Tira a camisa agora.
Sem jeito, tirou a camisa. Ela adorou a tatuagem do golfinho nas costas. Tinha um corpo bonito. Braços fortes. Perguntou empolgada :
- Tem certeza que você tinha que vir pra cá mesmo ?
- Sim.
Esticou o cartão da agência.
- Então o que houve ?
- O rapaz encomendado sofreu um pequeno acidente de carro.  Nada grave, mas não deu para avisar. Pediram na agência que eu viesse no lugar dele. Sou o melhor. Garanto. Não vai ficar decepcionada . Realizo todos os sonhos.
- Tem certeza ? - Sorriu pela primeira vez, relaxada.
- Se não gostar, devolve  o dinheiro.

Puxou o rapaz pelo braço. Trancou a porta. Beberam duas taças de vinho. Depois se enfiaram por entre os lençóis. Seis horas da manhã o despertador tocou :
- Meu tempo acabou.
Deu-lhe o dinheiro e pediu que deixasse o cartão da agência. Quando ficou sozinha, sorriu enternecida. Durante os quinze anos de casamento, o marido nunca lhe fizera se sentir tão mulher, como naquela noite.