15 de outubro de 2014

As duas vidas do Souza

Souza tirava o vestido de Luzineide, quando ela parou e empurrou o amante :
- Me responde agora : ou ela  ou eu ?
- Não entendi. Ela quem ?
Luzineide colocou o vestido e recostou-se na cama :
- Não se faça de desentendido.....ou eu ou a sua esposa ?!
- Agora não é hora  disso. Vem cá que eu estou cheio de tesão.
-Me larga. Você não trepa comigo enquanto não decidir.
Souza ainda tentou continuar com os carinhos, mas Luzineide esfriou. Queria discutir a relação. Chateado, vestiu-se e deu um beijo na amante :
- Tchau. Outro dia a gente conversa.
Ela o  segurou pelo braço. Souza silenciou . Percebendo que não havia jeito, Luzineide jogou:
- Você tem um mês para decidir . Um mês ! Depois, você vai ter que escolher : ou ela ou eu !
A atitude da amante não o abalou. Chegou em casa e assim que abriu a porta , escutou a voz acolhedora  da esposa :
- A comida tá no microondas, é só esquentar.
Jantou na cozinha, em silêncio. Depois, como de costume, tomou banho, colocou água de colônia e deitou-se ao lado de Maria do Carmo. Encostou os pés frios nos pés quentinhos da esposa. Sentiu-se protegido :
- O que é  que você está assistindo ?
- Um filme....quer que eu troque de canal?
- Não...pode deixar. O importante é estar ao seu lado.
Adormeceu abraçado a Maria do Carmo. Pela manhã foi acordado com café  na cama :
- Nossa,  quanta mordomia ! – brincou
- Fazemos 18 anos de casados hoje! Esquecidinho, né ?
Combinaram jantar no restaurante preferido de Maria do Carmo. Souza amava a esposa. Mas também amava Luzineide. As duas o completavam. A esposa era o porto seguro. Luzineide o lado selvagem e irresponsável. Só que agora a amante o pressionava. Não saberia escolher. A adrenalina da bigamia o excitava. Escolher seria como amputar-lhe uma parte do corpo. Continuou visitando Luzineide às quintas-feiras, sem pensar em  prazo. Estranhamente, ela estava mais carinhosa :
- Pra mim o perfume ?
- Presente de aniversário de casamento. – Luzineide ironizou.
- Mas o que é que  eu vou dizer em casa chegando com esse perfume ?
- Diz que é presente de um cliente. Quando você quer, você  sabe mentir.
Passou a ganhar toda semana, roupas e cuecas novas. Luzineide queria que as roupas ficassem na casa dela, para quando ele se mudasse definitivamente.
A esposa também  lhe agradava com docinhos, comidinhas especiais e cócegas nos pés. Vaidoso, aceitava o carinho e sentia-se o maior amante do mundo.  “ As mulheres disputam meu amor.” – Pensava . “ Encontrara, enfim, a vida sonhada por todo homem”  – Acreditou.
Quando o prazo dado por Luzineide terminou, ela exigiu uma resposta. Souza disfarçou. Mas ela foi enfática :
- É tudo ou nada : ou eu ou ela ?
- As coisas não são bem assim.....você está se precipitando...
- Eu estipulei um prazo, Souza. Quero a resposta.
- Estamos felizes assim. Você nasceu para ser amante. Tem o dom. O traquejo.
- Isso é um deboche . Nenhuma mulher nasce para ser a outra. Responde !
Colocado contra a parede, escolheu não escolher . Com raiva da apatia do amante, expulsou-o aos gritos :
- Quem vai decidir essa situação sou eu ! Você vai ver ! EU !
Depois de uma noite insone, colocou as roupas de Souza em uma mala, e foi até a casa dele. Tocou a campanhia decidida . Maria do Carmo atendeu distraída. Surpreendeu-se com  Luzineide, que a empurrou e entrou na casa gritando :
- Tá vendo essa mala aqui ?
Maria do Carmo manteve-se  calma :
- Sim, o que é que tem ?
- São as roupas do SEU marido.
Abriu a mala e jogou tudo no chão :
- Tá vendo ? As roupas que ele usa quando vai lá em casa foder comigo...
Maria do Carmo olhava sem nada dizer. Luzineide falava compulsivamente. Contou  que eram amantes há seis anos e que se davam muito bem na cama. Quando silenciou, Maria do Carmo fez cara de enfado e perguntou  :
- Aceita um café ?
A amante bateu a porta e foi embora com raiva, sentindo uma ponta de inveja ao ver o equilíbrio da outra. “ Nem bonita ela é”  – pensou.
De noite, quando Souza chegou do trabalho, Maria do Carmo, numa calma cínica, mostrou as roupas  :
-  Hoje veio uma mocinha aqui muito nervosa  e deixou essas roupas pra você.....
Souza ficou vermelho. Tentou se explicar. Gaguejou. A esposa sorriu vitoriosa :
- Não precisa me explicar nada. Aproveita e usa essa camisa bonita no aniversário do seu irmão amanhã.
-  Não vai me xingar ? Me expulsar   ? Não está aborrecida ?
- Você é meu marido ! Dorme todas as noites comigo. Ela é vadia. Mulher da rua.   
E continuou a conversa tranquilamente :
- Olha só, até que a pobrezinha tem bom gosto !

O casamento não ficou abalado.
Decepcionada, Luzineide passou a desabafar suas desventuras amorosas com uma vizinha que fora abandonada pelo noivo. A dor as uniu. Nas noites solitárias, consolavam-se.  
Passada a raiva, ligou para Souza  e contou que estava transando com a vizinha. Para irritá-lo, disse que a mulher  era boa de cama  . Souza duvidou. Quis visitá-la. Luzineide aceitou. Durante o trajeto, pensava excitado, que ter duas mulheres era bom, três, então, seria encontrar o paraíso perdido. Deu um sorriso tarado e  acelerou o carro empolgado, pensando nas coxas grossas da amante.


2 de outubro de 2014

Fim de tarde

                                              

Cinco da tarde. Sexta-feira  de um verão quente. Final de férias. Eu estava sozinha na praia, sentada em uma  espreguiçadeira, com um livro entre as  mãos .  Muitos banhistas se arrumavam para ir embora. A preguiça tomou conta de mim. Olhava  o mar e pensava que as férias tinham passado sem  novidades.  Apesar do verão  me deixar excitada, andei bem calma sexualmente nas últimas semanas.  Procurava uma aventura. Torcia para encontrar um homem que me livrasse do tédio.  Pelo menos, por algumas horas. Os homens estavam tão iguais. 
 Foi então que eu  o vi.  Caminhava  em direção  ao mar. Alto. Pele bronzeada. Pernas musculosas. Tórax torneado  e barriga sarada. “ Um deus grego”  -  Suspirei.  Olhava os movimentos másculos dele, respirando fundo. Ele mergulhou, deu algumas braçadas em direção às ondas e  saiu da água sacudindo os cabelos. Na areia foi em direção ao vendedor de mate e aproximou-se de . Meu coração disparou. Pensei em segundos :  “ Seria a lei da atração funcionando  ?”
Simpático, ele sorriu e  puxou assunto. Falou sobre o final do verão  e do dia  puxado no trabalho. Eu escutava e fazia charme jogando os cabelos.  Ele sentou-se na areia ao meu lado e  esticou as pernas. Os pés dele roçaram de leve  nos meus. Senti  um  arrepio cheio de prazer.
Conversamos durante quase uma hora. Ficamos calados durante alguns segundos olhando para o mar. Ele olhou a hora no celular e comentou :
- Quase sete da noite. O  sol  está indo embora. O mergulho me fez bem. Já vou. Obrigado pela companhia.
Fiquei sem graça. Queria pedir o telefone. Flertar  um pouco mais . Decepcionada,  dei um sorriso de reprovação.
Ele se levantou, limpou a areia da sunga,  me deu dois beijos no rosto e saiu andando apressado .  Comecei a me arrumar para ir embora. Quanto vestia a saída de praia, senti alguém mexendo no meu cabelo. Era ele novamente.
- Desculpe, não sabia que também ia embora. Eu moro a cinco minutos daqui. Não quer me acompanhar ? Tomar uma cerveja no meu apartamento ? Um vinho....refrigerante....
-Aceito a cerveja.
Saímos da praia conversando como se fossemos velhos amigos. Quando cheguei até o apartamento dele,  já me sentia  à vontade. Ele convidou-me para sentar no sofá , confortável e espaçoso, no meio da sala  e abriu uma garrafa de cerveja.  Voltou da cozinha com uma bandeja apetitosa de frutas e perguntou se eu topava fazer uma brincadeira.


Aceitei. Ele então vendou meus olhos e passou a massagear meu corpo com um óleo afrodisíaco. Primeiro os pés. Uma massagem relaxante e intensa. Depois subiu pelas coxas, passou perto da minha vagina e subiu pelo meu umbigo. Gemi  de prazer :
- Assim você está me deixando louca. Que óleo é esse ?
- É um óleo mágico. Especial para mulheres especiais como você.
Fiquei em silêncio, enquanto ele massageava meus seios com as mãos fortes e ao mesmo tempo suaves.
Depois subiu e passou pela minha nuca, me virou de costas, tirou meu biquíni e subiu em mim enquanto massageava minhas costas e meus ombros. Pressionava seu membro de sunga por trás...
- Topa continuar  a brincadeira ?
Naquela hora,  eu toparia tudo. Então ele amarrou minhas mãos. Aquela sensação de escravidão foi me deixando excitada. Eu estava nas mãos dele. Olhos vendados. Mãos amarradas. Eu não tinha como sair dali. E não sentia vontade . Queria mais brincadeiras com aquele homem lindo e desconhecido.
Ele  colocou uma fruta na minha boca e disse :
- Se você acertar, escolhe um lugar do seu corpo para eu dar uma lambida. Se errar, quem escolhe sou eu , aceita?
- Já disse que aceito tudo com você.
A primeira fruta acertei.  Ele disse então que eu a saboreasse enquanto ele continuava a massagem. Aquele jogo estava me deixando muito excitada. Eu esfregava meu sexo no sofá dele e ansiava por ele dentro de mim. Mas ele queria brincar mais. Pedi que ele lambesse minha nuca. Ele intercalou entre lambidas aceleradas e lambidas lentas.

Depois da primeira fruta, ele colocou outra fruta na minha boca  e pediu que eu adivinhasse mais uma vez . Errei. Era Framboesa. Ele então pediu que eu lambesse seu tórax.  A brincadeira durou quase meia hora. Eu estava alucinada e excitada. Depois que ele passou mais óleo no meu corpo e me beijou com gosto de framboesa, Eu pedi que ele me penetrasse com os olhos vendados. Ele não quis. Disse que queria olhar nos meus olhos no momento do encaixe. Olhando dentro dos meus olhos, ele desatou os nós das minhas mãos e subiu em mim como um cavalo selvagem. Elegante e imponente. Os movimentos do corpo dele me deixaram em êxtase. Gozei duas vezes. Adormecemos nus e  espalhados no  confortável sofá.
Acordamos no início da manhã quando o sol já entrava pelas frestas da cortina. Eu me ajoelhei  no chão e comecei a chupá-lo  vagarosamente. Ele abriu os olhos e ficou em silêncio. Olhava  meus movimentos. Gozou silenciosamente. Mas eu não estava satisfeita. Aquele homem cheio de truques e ideias tinha despertado em mim um desejo incontrolável. Subi no sofá e comecei a me esfregar naquelas  coxas grossas e rijas. Logo  estávamos acesos  para uma nova rodada de sexo. Por algumas horas, encontrei a verdadeira  felicidade.

Passamos o sábado comendo frutas, bebendo vinho e transando.  Passava das  dez  da noite quando  me despedi , com a promessa de um novo encontro. Trocamos os números dos celulares . Ele me  pediu que eu não demorasse a voltar.

Na segunda-feira voltei a  trabalhar pensando naqueles momentos. A semana passou corrida. Muito  trabalho pendente. Fina l de semana me deu saudades.  Liguei pra ele. Celular fora de área.   Resolvi ir à praia domingo  e passar no prédio dele. O porteiro me recebeu.  Eu disse confiante  que subiria até o apartamento 603. Lembrei-me então que não sabia o nome dele.
O porteiro   me respondeu  que o apartamento estava alugado por temporada e que na quinta-feira, o inquilino  que morava lá ,  havia devolvido as chaves para o proprietário.

Saí do prédio com uma sensação de vazio. Desapontada.
Para me consolar , pensei : “ Quem sabe um dia ele não liga pra mim ?”
Embora soubesse que nunca mais iria vê-lo.


                                        

12 de agosto de 2014

Convite

Sei que ainda está distante , mas quero dividir um momento especial da minha vida com vocês. É o convite de lançamento do meu próximo livro " Conversando com o espelho" . Será em Setembro. O livro conta a história de um ex-policial militar, que, preso, julgado e condenado há 23 anos, pelo crime de extorsão mediante sequestro, tem no espelho, o seu principal companheiro e confidente de cela. Inspirado em fatos reais. Realidade e ficção se misturam num romance eletrizante.Uma história  dos nossos dias. Se você deseja interagir e saber mais sobre o livro, adicione a página do Conversando com o espelho no Facebook.

Moça de família

                                            

Quando a filha de Sales abriu a porta , Moraes encantou-se  com a beleza da jovem morena de 18 anos. Verificou com os próprios olhos que  ela era tudo  o que  o amigo falara no escritório e mais alguma coisa. Um verdadeiro pedaço de mau caminho capaz de desvirtuar um homem de bem como ele  : cintura roliça  , pernas esculpidas em academia , olhos grandes da cor da jaboticaba e seios rijos que mais pareciam duas peras. O micro-short deixou Moraes em transe.   Porém, logo se recompôs,  pigarreou e ainda embevecido  falou :
- Como vai, boa tarde !? Você é a Elisinha ? Sou o Moraes,  amigo do seu pai , do escritório. Ele me convidou para almoçar...
Elisinha  sorriu deixando os dentes branquíssimos à mostra e convidou-o a entrar . Quando passou por ela entorpeceu-se ao sentir o  perfume delicado de rosas :
- O senhor pode sentar , por favor, papai  já vem . Ele tá na cozinha com mamãe.
Dois minutos depois Sales aparece sorridente com uma garrafa de cerveja na mão e a esposa do lado :
- Me dá um abraço  , vamos comemorar sua visita. Até que enfim saiu de casa!
- Só você mesmo amigo para me tirar de casa.
- Essa é Divina, minha esposa, esse é o Moraes ,meu companheiro de escritório que perdeu a esposa há dois meses
Depois das apresentações conversavam animadamente, quando Divina foi até a cozinha para olhar o assado.  Sales então, cheio de orgulho, comentou :
-  Minha filha não  é uma verdadeira  princesinha  ?
- É , e como. Uma moça muito linda.
- Elisinha é minha jóia. Uma preciosidade . Sabe como é : única filha mulher, a  caçulinha. 
Durante o almoço, sem que ninguém percebesse , Moraes  lançava olhares maliciosos  para Elisinha . Impressionara-se  com a beleza da morena e sentia raiva pelos 53 anos, que o impediam de paquerá-la ousadamente . O dia passou rápido.

Durante a noite teve insônia. O jeito meigo de Elisinha não lhe saía da cabeça. Achou que a empolgação adolescente eram os primeiros sinais de senilidade. Sales jamais poderia adivinhar-lhe os pensamentos. Seria  uma carnificina.

Quase quinze dias depois da visita a casa do amigo , aborrecido com o calor no apartamento, resolveu  caminhar no calçadão da Avenida Atlântica . Quando já  andara dois quarteirões,  avistou uma jovem com um micro-vestido  que lhe chamou a atenção : “  acho que conheço aquela moça...sim...é ela..a filha do Sales....e está ...não acredito ! Pegando homem no calçadão de Copacabana !!!!! “
Aproximou-se. Ficou desconcertado ao ver que a  linda filha do amigo levava vida dupla. Pega em flagrante, Elisinha falava baixo olhando para o chão :
-Pelo amor de Deus seu Moraes , não conte ao meu pai o que viu. Será um segredo entre nós dois...promete ?
- Mas seu pai precisa saber...isso é uma vergonha !
Como não conseguia convencer Moraes, protagonizou uma cena deprimente . Ajoelhou-se  no calçadão implorando com lágrimas nos olhos :
- Se papai souber que mato aula na faculdade para me prostituir é capaz de morrer do coração. O que preciso fazer para o senhor não contar a ele   ?
Moraes lutou para  tirar a idéia que lhe passara pela cabeça. Venceu a tentação. O instinto. Com cuidado, pegou Elisinha  pelo braço e cochichou-lhe aos ouvidos . Ela topou com um sorriso malicioso nos lábios  :
- Está bom no  sábado ? Quatro da tarde ?
Moraes sacudiu a cabeça concordando  e com os olhos brilhando saiu com o coração aos pulos pelas ruas de Copacabana. Tinha certeza que   perdera o juízo, porém,  uma maluquice de vez em quando – pensou -  até caía bem para colorir a  vida entediante   .
No sábado Elisinha  foi pontual . Quatro da tarde tocou a campanhia do apartamento de Moraes . Passaram a se encontrar toda semana. Remoçou. Ironicamente, foi Sales quem notou  a mudança :
- O que aconteceu com você ? Parece que rejuvenesceu uns 20 anos. Até fica cantarolando sozinho....está apaixonado e não me conta nada  ?
Moraes  disfarçava com um sorriso de canto de boca  :
- Impressão sua....é o calor que me deixa mais corado.
Foi num sábado a tarde que tudo aconteceu. Elisinha e o amante   estavam abraçados na cama , quando ela desabafou :
- Meu pai anda estranho..pelos cantos...não fala direito comigo...será que desconfia de alguma coisa ?
- Como ? Impossível !!?. Nem na sua casa vou para não ser traído pelo olhar.
- Vai ver é  coisa da minha cabeça...
- Esquece , meu pêssego. Fica na cama que vou jogar uma ducha no corpo e já volto.
A campanhia tocou. Moraes  gritou do banheiro :
- Abre a porta , minha frutinha , deve ser a encomenda da padaria.
Elisinha enrolou  uma toalha no corpo e abriu . Ficou frente a frente com o pai.  Sales empurrou a filha com o coração aos pulos. Tremia dos pés a cabeça. Entrou no apartamento gritando  em total  estado de alucinação  :
- Cadê aquele filho da puta tarado ? Cadê aquele filho da puta que desvirginou minha princesinha ?!
- Papai...não é o que o senhor está pensando...calma ! O senhor vai ter um troço !

Moraes  chega na sala e tenta se explicar. É pior. Sales  fica vermelho e dá um uivo ensurdecedor. Em seguida coloca a mão no peito e cai no chão . O enfarto é fulminante. Elisinha  joga-se junto ao corpo do pai e transtornada agride Moraes  com palavras  :
- A culpa é sua ! Tarado ! Indecente ! Imoral ! Não quero nunca mais ver essa sua cara de rinoceronte !


Nunca mais se viram . Moraes nem no enterro apareceu. Elisinha, para redimir-se,  tornou-se beata . Ajuda  na missa das seis  passando a sacolinha.  Em casa, antes de dormir, ora devotadamente para resistir a tentação que lhe corroi a alma  : os olhos azuis de padre Francisco despertam-lhe pensamentos libidinosos e sonhos eróticos. 

3 de agosto de 2014

A capa do meu novo livro " Conversando com o espelho".
Um romance policial eletrizante inspirado na vida de um ex-policial militar.
Você não pode perder. O lançamento oficial será em Setembro.
Quem quiser curtir e obter mais informações sobre o livro pode copiar e colocar no navegador ou quando estiver no facebook : https://www.facebook.com/convercomoespelho?notif_t=page_new_likes

20 de janeiro de 2014

Amores consumistas

                                            
Janete desligou o celular, suspirou e disse em voz alta :
- É o terceiro. Para fechar a semana.
- Terceiro o quê ? – gritou curiosa Ana Claudia, chegando da água .

Janete, Ana Claudia e Inês estavam  na praia de Ipanema num domingo ensolarado. Ana Claudia e Inês foram se refrescar no mar  e quando voltaram, Janete desligava o celular e pensava em voz alta.

Ana Claudia insistiu :
- Terceiro o quê , Janete  ? Responde. Anda.
- Vou sair com um carinha hoje á noite para  transar.
- Estou ouvindo bem , ou você falou que seria o terceiro, só esta semana?
- Ouvindo muito bem .

Janete ficou pensativa. E contou nos dedos :
- Terça eu saí com um lindo. Sexta com outro. Muito chato. O homem chuchu. E agora vou sair com o Luiz Marcelo. Conheci  num  restaurante no Centro da Cidade.
Inês fez cara de espanto :
- Primeiro me responde : o que é homem chuchu ?
- É aquele que você  come e não tem gosto de nada.

Ana Claudia esticou a canga na cadeira , colocou creme no cabelo e com ar de reprovação perguntou :
- Você não acha que com 32 anos está muito velha para dar uma de putinha ?
- Existe idade para ser puta ? E mesmo assim por que sou puta ?
- Saindo com três homens diferentes para ir pra cama em menos de uma semana ?
- Normal. Qual o problema ?
-E a afinidade ?
- Tesão é afinidade, queridinha. Senti  tesão  pelos três . Não é assim que eles fazem ? E são felizes !
- Mulher é diferente.
Inês balançou a cabeça concordando com Ana Claudia. Incentivada, Ana Claudia continuou :
- Você está virando uma mulher fácil. Isso não é felicidade. É desespero.
- Não enche Ana Claudia. Desesperada está você. Há quanto tempo não vai para a cama com um homem ?
- Seis meses. E daí ? Não morri.
- Tá esperando o príncipe encantado ?

Inês fez uma pergunta, séria, franzindo a testa :
- E o amor, Janete ?
- Amor ?
- Sim . Eu amo o Roberto.
- Você está acostumada com o Roberto. Estão juntos há três anos. Você sente tesão por ele ?
Inês olhou para o mar e mexeu nos cabelos.
- Sinto. Mas não é o mais importante.
- É o mais importante, sim. Sem tesão , queridinha, não há relação.
- E só com tesão também não existe.
- Pelo menos existe sexo. Homem foi feito para ser consumido.
- E o amor ? – Ana Claudia tornou a fazer a pergunta.
- Amor não existe.

Inês e Ana Claudia perguntaram juntas :
- Como é que é ?
- Amor não existe . Já diz  um livro, que quem inventou o amor foram os franceses.
- Não começa com filosofia , Janete. – disse Ana Claudia , irritada.
- Não é filosofia. Amor é coisa criada para vender livro meloso, filme chato e romântico, música porcaria... e vai por aí.
-  Então você não amou o Ricardo ? –  Inês perguntou e olhou para ela esperando a resposta.
- Não. Se eu tivesse amado, ainda estaria amando. Sofri, mas passou. Agora eu quero curtir a vida e vocês estão  enchendo a  minha paciência.
-  Queremos o melhor pra você.
- O melhor pra mim é sexo.   Sexo é bom e  faz bem para a pele. Homens adoram ser consumidos igual a um picolé em dia de calor !
- Eles usam camisinha pelo menos ? – perguntou Inês.
-  Óbvio. Os homens que eu ando  são potentes. Funcionam com camisinha.  
- Vai acabar se machucando – disse Ana Claudia com ar de maturidade.
- Quem vai se machucar é você. Há quase um ano você espera para sair com o seu vizinho . Não percebeu ?  Ele não QUER NADA COM VOCÊ .  Parte para outra ou então agarra logo o homem. Viva a vida !
- Ontem ele pediu o número do meu celular e disse que ia me ligar.
- Ele pode até ligar, mas só vai querer uma coisa : sexo. É só sexo. Ninguém gosta mais de ninguém.  Amor virou objeto de consumo. Alias, amor, não existe. É  tesão . Sexo.
- Você está muito recalcada – disse Inês.
- Recalcada são vocês . Eu estou aproveitando a vida. Tenho excesso de tesão.
-  O sol  fritou o seu cérebro ! – rebateu Ana Claudia.
- O cérebro não tem problema. Desde que deixe a xoxota inteira. Tesão  eu tenho de sobra. Acho até que vou escrever um ensaio filosófico sobre o tesão.  Que acham  ?
- Sem graça.
- Não vão brigar , né ? – disse Inês atendendo o celular e fazendo voz doce.
- Hum já sei até quem é.... - riu Janete.
- Ela ama, né Janete ? Não é avulsa que nem você.
- Tá bom, Ana Claudia. Ela ama e eu sinto tesão. Tô indo. Vou me arrumar para mais tarde aproveitar. Ficam vocês aí.
- Vai ...mas usa camisinha.
-  Tá fazendo propaganda para algum fabricante ?
Inês desligou o celular :
- Ué, já  vai ?
- Já. O papo moralista de vocês duas me deixou com o estômago embrulhado.
- Espera. Vamos embrulhar mais ainda o estômago e pedir um sorvete. Que tal ?
- Boa ideia, quero de limão !
- Quero de chocolate ! Chocolate é afrodisíaco !
Depois da primeira mordida, Inês deu uma risada maliciosa :
- Então ?!!! Vamos brindar a vida por existir o tesão !
- Viva o tesão !
- Principalmente o meu ! - disse Janete piscando os olhos. 

As três começaram a rir.  


26 de novembro de 2013

Tá doendo.

Sábado chuvoso. As duas amigas chegaram juntas no restaurante. Iam almoçar e bater papo.  Escolheram a mesa de canto. A  mais discreta. Julieta queria paz.  Sentia-se desanimada. O coração estava apertado. Chamaram o garçom e pediram uma bebida. Assim que ele anotou o pedido e saiu, Regina olhou para a amiga e perguntou:
- Fala, amiga, o que aconteceu  ? Fiquei preocupada com a sua ligação.
 - Tá doendo.
- O quê ? Não entendi !? Você se machucou ?
- Muito,. E não tem remédio que dê jeito.
- Pelo menos almoça. Pediremos algo bem gostoso.
- Não sinto fome.
- Então é melhor suspendermos a bebida e procurarmos um médico.
-  Quero beber. Talvez seja a única maneira de passar a dor.
- Com bebida ? Nossa !! Parece conversa de bêbado. Dá para me explicar o que houve ?
-  O César terminou o noivado.
- Terminou ?  Ele bateu em você ?
- Não, né ??!!
-  Seja mais direta.
- Amiga, meu coração tá doendo.
- O que eu posso fazer por você ?
- Nada. Ninguém pode fazer nada. É esperar passar.
- Não tem chance de voltar ?
- Tentei a semana toda...a outra.. mais a outra...
- Então o jeito é esquecer.
- Não é tão fácil.
- Amiga, não tem outro jeito.
- Acredita que ele já tem outra ?
- Acredito.
- Estou mal. É ciúme. Raiva. Orgulho ferido. Tudo junto.
- Toda mulher passa por isso.
-Eu  não quero mais passar por isso. Tem horas que eu penso que o ar vai me faltar.
- Não é melhor procurar um psicólogo ?
-Se você me garantir que eu vou procurar um psicólogo e a dor vai passar.
- Não existe garantia.
-  Essa é uma dor que não passa com remédio. Nem como palavras. Só com a presença da pessoa.
- Sei...ou melhor, não sei. Nunca senti. Só quando o Fernando terminou comigo. Depois, nunca mais gostei de ninguém.
- Melhor coisa. Gostar e depois ter que desgostar é sofrimento.
- É uma emoção boa.
- Você é masoquista. Não tem nada de bom no sofrimento.
- Veja pelo lado positivo. Da próxima vez você não se entrega tanto.
- Não terá próxima vez. Não quero mais gostar de ninguém.
- É uma ótima opção.
- Só quero sexo casual agora.
- É...só que ninguém manda no coração.
- Vou mandar no meu.
- Não é tão simples assim.
- Como não ? O coração é meu. Agora  é só sexo.
- Tá bom . Não vamos discutir.
- Garçom, por favor, que horas você sai hoje ?
- Seis da tarde.
- Então eu te espero.
O garçom balançou a cabeça, entregou o pedido e saiu. Regina olhou para a amiga com olhar de espanto :
- Ei, o que você está pensando em fazer ?
-Isso mesmo que você imaginou. Agora é só sexo. Ele não é um gato ?
- Mas você não sabe se ele quer sair com você.
- Querida, eu vou pagar o motel, vou fazer sexo e nada mais. Qual o homem que não aceitaria ?
- Só quero ver. Depois me conta.
Ficaram bebendo até ás seis da tarde. Julieta e Regina saíram primeiro. Despediram-se. Julieta esperou o garçom e logo o convidou para esticar a noite no motel. Ele aceitou entre desconfiado e constrangido. 

Já no quarto do motel, ao ver o garçom nu, ela sentou-se na cama e começou a chorar pensando no noivo. A imagem do ex ia e voltava na cabeça dela, como se fosse uma cena de novela.
Espantado , o rapaz perguntou o motivo do choro. Entre soluços , ela respondeu   :
- Tá doendo.
- Aonde dói ? Posso ajudar ?
- No coração. Ninguém pode me ajudar.
- Então vamos embora ?!
- Não. Fica comigo. Dorme comigo. Eu só quero companhia.
- Tá bom.

O garçom ligou a televisão e ficou assistindo em silêncio. Vinte minutos depois, Julieta adormeceu.



19 de novembro de 2013

A festa do meu melhor amigo


Como sempre fazia, saí do apartamento me ajeitando. Coloquei  o tênis no elevador. Cheguei à  garagem  e procurei na mochila a chave do carro. Joguei  minha mochila de estimação  no banco de trás e enfiei a chave na ignição. Girei e dei a partida. Estava indo pra casa do meu melhor amigo. Aniversário de 35 anos. Jonas era bem casado há cinco anos. Ao contrário de mim. Aos 33, continuo solteiro e feliz. Tive poucos namoros sérios, uns três,  e vários  casos.  As mulheres me fascinam,  me adoram , mas me chamam de problemático.  Devo ser. Não consigo manter relacionamentos a  longo prazo. Não sei se o problema é meu, ou delas. Talvez seja o ciúme. Mulheres são muito ciumentas. Detesto ciúme e quando sou cobrado, tenho crises de ansiedade. Não demoro muito a trocar uma pela outra. Talvez seja por isso, que eu  estou cada  vez mais entediado, amorosamente.

Cheguei  a casa de Jonas meia hora depois de vários sinais fechados e interessantes  digressões. Não gosto de festas. Muito sorriso falso e pouco calor humano. Mulheres  com roupas mínimas, cabelos esvoaçantes e coloridos e bocas vermelhas e desfrutáveis. E claro, o melhor,  amigos e bebidas. É o que me conforta. Não, não sou machista e nem é minha intenção denegrir a imagem do sexo feminino. Sou mesmo é entediado.

Fui recebido por Jonas e percebi assim que pisei na sala,  o olhar devastador de uma morena alta, de cabelos lisos e longos.  Apesar do meu ar blasé, faço sucesso com as mulheres.  Sou bonito . Pense num homem bonito. Sou exatamente como você me imaginou. Além de bonito, tenho um olhar distante e misterioso. Enlouqueço as mulheres com meu charme. Distribuo carinho , atenção e um bom sexo.  Mas minha empolgação tem  prazo de  validade . Um iogurte no supermercado ,em época de promoção, talvez seja mais vantajoso. Ou a tinta de uma caneta vagabunda.

Como disse antes, enjoo rápido das mulheres, aliás, de quase tudo. Vivo trocando de emprego, apartamentos, carros e não tenho paciência para digressões alheias. Ás vezes, nem as minhas  . Jonas aconselha-me dizendo que sou muito jovem para  tanto ranzinismo. Mas não dá para me transformar em alguém que não sou. Nem  faço questão de ser de outro jeito.

Voltemos ao aniversário do meu amigo.

Eu e Jonas trocamos informações e depois de cumprimentar alguns amigos, peguei  uma bebida e fui para a varanda conversar com um colega  da época da faculdade. Cinco minutos depois apareceu a morena de cabelos longos . A do olhar devastador. Ela vestia  um  short jeans,  sandálias  de salto alto  e uma blusa frente única. Fez questão de colocar os  cabelos na frente e deixar as costas nuas,  para mostrar a tatuagem da deusa têmis, imagem mitológica , representante da justiça.


Enquanto meu colega discursava, indignado, com a  atual situação do país , eu me distraía com o jogo de cintura da morena : “ por que fez questão de me mostrar a tatuagem ?” Talvez quisesse se exibir. Mostrar  que era advogada. Inteligente. Engajada em alguma causa. Direitos Humanos. Quem sabe ? Agora é moda.

Talvez quisesse me dizer que não era vazia. Sabia conversar. Mulheres que sabem conversar são problemáticas. No início até gosto de ouvi-las. mas um mês depois ficam chatas e repetitivas . Não param de falar. Desisti. Jamais sairia com uma mulher tatuada com o símbolo da justiça. Sim, já me chamaram de machista . Não ligo. Devo ser mesmo. Será  pecado ? Se for, então sou um grande pecador. E se existe mesmo o tal de céu e inferno, meu lugar no inferno  estará reservado. Com certeza ao  lado de mulheres bonitas.

Enquanto eu pensava,  meu colega falava. Eu não prestava atenção. Só balançava a cabeça. Estava numa briga invisível com a morena. Ela se aproximava , com as costas nuas e eu recuava. Não estava interessado na tatuagem dela e se antes a achava  bonita, depois de tanto se oferecer, perdi o interesse.  Dei uma de antipático. Chamei meu amigo para pegarmos uma bebida e me afastei. Mulheres oferecidas e atrevidas me causam tédio. Gosto da paquera sutil. Da troca de olhares. De sedução elegante. Sedução barata não me agrada. Ainda tentei mais duas paqueras. Uma ruiva com a pele cheia de sardas. Fumava e bebia muito. Detesto fumaça de cigarro.A  outra era magrinha, cabelinhos pretos e curtos. Muito sorridente. Trocamos alguns olhares. Mas  o relógio deu o sinal . Três da madrugada. Hora de voltar para o conforto do meu apartamento. Ligar meu ar. Esticar minhas pernas.


Saí sem me despedir. Jonas estava acostumado. Não iria reparar na minha ausência. Talvez a tatuada reparasse. Sentiu-se rejeitada. Não parava de me olhar. Passou por mim duas vezes e da segunda vez, esbarrou em meu braço, derrubando meu copo. Foi quando olhei o relógio e decidi  ir embora. Ao mesmo tempo que admiro as mulheres, me entedio fácil . Minhas amigas feministas vivem me criticando. Levei  todas elas  pra cama. Nunca me apaixonei . Até me esforcei. Fiz poemas . Rimava palavras, olhando a chuva batendo no vidro da janela. Nunca saiu nada de bom. Não tenho talento para a poesia. Talvez o tédio me paralise. Não sei. Não procuro saber.

Abri a porta do apartamento e me senti aliviado por estar seguro sem precisar ser agradável. Sim, sou fóbico. Tenho fobia a chatice. Lugares com muita gente e falatório além do suportável. Sinto-me mais confortável quando estou  sozinho. Em paz.

E assim fiquei.

Banho tomado, deitado na cama, luz do abajur acesa, pernas esticadas, peguei um livro na mesa de cabeceira, entre vários que aguardavam na fila. Escolhi um  de Freud, A interpretação dos sonhos. Estava curioso. Nos dois últimos meses  sonhava muito com castelos e bosques. Era um sonho repetitivo e chato. Acordava sufocado. Como se tivesse uma  espada na minha garganta. Talvez a leitura me desse respostas. Poderia ser um desejo reprimido . Quem sabe ? Ou uma raiva contida. Vontade de voltar à Idade Média . Teria eu vivido outras vidas ? Ou sonho não passa de sonho e não  tem explicação ?

Freud poderia me dar algum  diagnóstico ?

Dormi na terceira página. Sonhei com um castelo no alto de uma montanha. Acordei com a garganta seca.