5 de fevereiro de 2010

ROSAS VERMELHAS

Escovei os dentes, lavei o rosto, passei um perfume e dei uma olhada no relógio: sete e meia da noite. Saí do plantão e antes de voltar pra casa, passei num boteco perto do hospital e pedi pão com pernil e um refrigerante. Fazia meu lanche olhando pra televisão do bar, quando um casal discutindo entrou e sentou do meu lado. A mulher estava com um vestido vermelho curto e uma maquiagem carregada. Os cabelos loiros estavam presos num rabo de cavalo. O homem vestia uma calça jeans e uma camiseta branca. Gesticulava, falava alto e grosso. O bar tinha pouca freguesia. Ouvi com atenção a conversa. Ele falava, e ela chorava.


- Será que você não entende? Acabou. A minha mulher está desconfiada.
- Mentira . Você quer pular fora. Sei que já tem outra.
- Outra? Duas me dão trabalho demais. Vou arrumar três? Só se eu fosse maluco.

O choro da mulher aumentou. Olhei de canto de olho e percebi que o homem estava impaciente. Franzia a testa, batia com os dedos na mesa e olhava para o teto. Num gesto brusco, empurrou a cadeira, se levantou e saiu sem dizer nada. O choro da mulher aumentou. Fiquei com pena. Peguei um guardanapo de papel e ofereci.

Ela enxugou as lágrimas e assoou o nariz:
- Viu só o que ele me fez? Vocês não prestam.
- Não me mete nos seus rolos. Cheguei agora. Não tenho nada com isso.


Ela pulou para a minha mesa e agarrou minhas mãos:
- Desculpe, não falei por mal. Estou muito nervosa.


Dei um sorriso de cortesia, peguei um palito e fiquei brincando com ele para descarregar a tensão. A mulher pegou outro guardanapo e voltou a assoar o nariz. Com voz agressiva me perguntou:

- Você é casado?
- Pra que você quer saber?
- Curiosidade, mas se não quer dizer respeito sua privacidade.
- Muito obrigado. Bom, eu já vou indo. Boa sorte.
- Não, fica comigo – segurou na minha camisa num gesto de desespero.
- Preciso de companhia. Se você for embora, posso fazer uma besteira.
- Eu tô cansado. Saí do plantão agora e preciso dormir.
- Você é médico?
- Enfermeiro.
- Você trabalha no hospital da esquina?
- Trabalho. Espero que você não precise, mas se precisar é só me procurar. Desculpe, tenho que ir.

Ela insistiu. Puxou assunto e segurou meus braços pedindo para eu ficar. Olhei mais uma vez o relógio : Nove horas. Penalizado, concordei.

- Qual é seu nome? Você não me disse seu nome.
- Elisa , mas pode me chamar de Isa.
- Tá bom, Isa.


Engrenamos uma conversa animada. Isa era uma mulher carente, meiga e engraçada. Pedi uma cerveja para relaxar. Ela bebeu comigo. Duas horas depois já tínhamos entornado cinco cervejas. Paguei a conta, agradeci a Isa e me preparei para chamar um táxi.

- Bom, acho que agora você já está melhor. Está rindo à toa.
- Você me fez bem. Não sei o que teria acontecido se eu não tivesse te encontrado.
- E você? O que vai fazer a respeito do cara?
- Nada. Há dois meses ele vem tentando terminar comigo. Ontem ensandeci e liguei vinte vezes para o celular dele.
- Você é obcecada. Fiquei com medo agora – brinquei.
- Pois é. Acho que ele também ficou com medo. Hoje ele me procurou porque ameacei ir na casa dele contar para a esposa que somos amantes.
- Isso não se faz – comentei debochado - Sem chance de volta, então?
- Infelizmente, sim. E você? Ainda não me disse se é casado. Se tem alguém.
- Você é muito curiosa. Eu preciso ir.


Andávamos sem destino. Isa me olhava com jeito de cachorrinho pidão. Esperei-a se aproximar. Ela tomou a iniciativa. Pegou nos meus braços, ficou na ponta dos pés e falou baixinho no meu ouvido:

- Dorme comigo. Só hoje. Estou tão carente.

Cocei a cabeça. Olhei mais uma vez para o relógio: Meia-noite. Não deixaria uma mulher sozinha na rua, àquela hora. Peguei Isa pelo braço e fomos caminhando em ziguezague pelo meio-fio. A noite estava quente e o céu estrelado. Um vendedor de rosas passou ao lado de Isa, e ela o fez parar:
- Adoro rosas vermelhas. Compra pra mim?


Peguei uma rosa e entreguei para ela. Ficamos em silêncio durante cinco minutos.
- O que aconteceu? Você ficou triste de repente. Falei alguma coisa que não devia?
- Não é nada com você. Coisa minha.


Olhei para o letreiro e puxei Isa:
- Tô com sono. Vamos dormir?


O quarto era pequeno, simples e limpo. Uma cama de casal, um espelho no teto, duas mesinhas de cabeceira e um banheiro com cheiro de eucalipto. Isa entrou no banheiro, tirou a roupa, e abriu o chuveiro.

- Você não vem? A água está uma delícia.
- Bom proveito.

Deitei de cueca e liguei a televisão em qualquer canal. Apenas para distrair meus pensamentos.

Isa voltou pra cama de roupão. Fingi que dormia. Ela desligou a televisão, passou a perna por cima do meu corpo e logo adormeceu. Acordei com o sol entrando pela fresta da cortina. Olhei o relógio e dei um pulo. Dormi demais: Nove e meia. Tinha que voltar pra casa.. Chamei Isa. Ela se espreguiçou durante alguns segundos, vestiu a roupa e não fez comentário sobre a noite anterior. Olhei para ela coçando o queixo:

- Vou direto pra casa. Tenho muita coisa pra resolver.

Isa deu apenas um sorriso e balançou a cabeça constrangida. Pedi um café simples com torradas para não sairmos de estômago vazio. Não toquei nas torradas. Bebi duas xícaras de café sem açúcar. Na rua nos despedimos sem promessas. Dei-lhe um beijo no rosto. Isa passou as mãos pelos meus cabelos:

- Obrigada por ficar comigo. Você é um cara legal.

Assim que virei a esquina, entrei numa floricultura e comprei um buquê de rosas vermelhas. Peguei um ônibus e segui para o Catumbi com um nó preso na garganta.

Cheguei no cemitério perto da hora do almoço. Segui direto para a sepultura de Elaine. Ela morreu atropelada na esquina de casa, faltando uma semana para o nosso casamento. Adorava rosas vermelhas, filmes de suspense e sorvete de creme.

Coloquei o buquê em cima da sepultura e fiz uma oração.

Saí do cemitério com o sol a pino. Comprei uma garrafa de água mineral e peguei um ônibus para o Engenho Novo. Preciso ir ao banco e depois passar na casa da minha mãe. Sete horas tenho plantão em outro hospital.

30 de janeiro de 2010

A REVELAÇÃO DA NOIVA


Final de expediente. Neide se despede da colega de trabalho no ponto de ônibus. Sueli  deseja boa sorte.

- Vai dar tudo certo. Você vai ver.
- Vou precisar. Será mesmo que tenho que falar?
-Conta . Vocês vão se casar. Não pode haver segredos .

Despedem-se com um abraço carinhoso. Vinte minutos depois Neide desce na porta do trabalho do noivo. A chuva começa a cair. Ela corre protegendo-se com a bolsa, e se abriga embaixo da marquise . Dá um suspiro de irritação e liga para Lúcio:

- Seis e meia. Vai fazer hora extra? Então anda logo. Já cheguei. Estou na portaria te esperando.

Quinze minutos depois Lúcio aparece apressado:
-Até que enfim!
- Neide, você não pode ficar chateada. Isso não é brincadeira. É meu trabalho. Hoje é quarta-feira. O que tanto você quer falar comigo?
- Precisamos conversar. Urgente.

Lúcio pega a noiva pelo braço . Os dois seguem para a garagem da empresa. Antes de dar a partida no carro, ele pergunta:
- A conversa vai ser na minha ou na sua casa?
- Não. Nada de casa. Tem sempre alguém para atrapalhar. Telefone. Cachorro latindo...
- Então a conversa é séria?!
- Muito. Tem que ser lugar calmo.
- Motel.
- Motel coisa nenhuma. Vamos naquele barzinho lá perto de casa.

Seguem para o bar em silêncio como se houvesse entre os dois o peso do mundo. Descem do carro. A chuva já parara. Lúcio suspira e ajeita a camisa. Neide reclama:

- Sempre cansado e com esse olhar de peixe morto.
- Trabalhei duro o dia todo.
- Você vive cansado. Deve ser por isso!
- Por isso o quê?

Neide desconversa. Entram no bar procurando uma mesa. Lúcio puxa a noiva para uma mesinha de canto com dois lugares. Pede dois chopes e verifica se está com os cartões do banco. Passa a mão pelos cabelos e finalmente pergunta:

- Fala. O que aconteceu?
- Vamos nos casar daqui a duas semanas.
- Sim e daí?
- Daí que não pode existir mentira entre nós.
- E qual é a mentira que existe entre nós? Não faz suspense. Fala logo.

O garçom chega com os chopes, dá um sorriso, pega o cardápio e fica esperando o pedido. Lúcio mexe nas sobrancelhas, e passa a mão na boca:
- Uma pizza média de calabresa.


O garçom se afasta. Ele pressiona a futura esposa:
- Chega de suspense. O que está acontecendo?

Neide sente o rosto corar e começa a coçar os braços, nervosa. Olha para os lados procurando disfarçar:
- Eu não sei como você vai receber a notícia, mas preciso dizer.
- Você já está me irritando. Não quer mais casar, é isso?
- Não. Não é isso. Pelo amor de Deus!
- Então o que é?
- Lúcio, nesses três anos que estamos juntos, nunca gozei com você.

O noivo franze a testa e faz cara de espanto :
- O quê?
- Isso que você escutou. Não posso falar mais alto, alguém pode ouvir.

Lúcio toma o chope de um gole só. Chama o garçom:
- Suspende a pizza e vê quanto dá os dois chopes.

Levantam-se e saem do restaurante. Lúcio sai na frente, caminhando pesado. Neide o segue com passos apressados:
- Ei , dá para andar mais devagar?

Não tem resposta. Entram no carro calados. A noiva de Lúcio começa a chorar e funga entre uma lágrima e outra:
- Vai ficar fazendo tipinho agora? Parece que confessei uma traição.
- E mentir não é traição? Fingir durante três anos? TRÊS?

Neide defende-se:
- Acho melhor ser sincera antes do casamento . A gente pode tentar novas posições....

Lúcio dá uma gargalhada nervosa e continua dirigindo sem olhar para os lados. Chegam na porta da casa dela. Despede-se de Neide, friamente:

- Pode sair . Está entregue.
- Nossa , quanta grosseria! É só o que você tem pra dizer?
- Quer que eu diga o quê? Detesto mentira. Dizia que gozava gostoso comigo. Uma. Duas vezes.
 Desculpe. Só queria agradar. Não vai me perdoar?
- Quem mente por causa disso, mente por outras coisas também. Não tem perdão.
- Estou sendo sincera. Você não pode brigar comigo por causa de uma bobagem.
- Bobagem? Faltando 2 semanas para o casamento e você me vem com historinha? Você feriu minha dignidade. Não confio mais em você. Sai do meu carro.
- Você não pode fazer isso.....perdoa...
- Sai do meu carro! ACABOU, Neide. ACABOU!

A mulher entra em desespero. Implora. Segura o noivo pelo braço . Ele a empurra.
- Sai do meu carro. Você não entende? Para o homem isso é muito importante.
- Mas podemos consertar. Nos amamos.
- Quem ama não mente. Não dá para casar com uma mentirosa! Paro por aqui.
- Você quer dizer que não vai ter mais casamento?
- Nossa, como você é inteligente! – ironizou.

Neide sai do carro aos prantos. Lúcio respira fundo. Os olhos brilham. Passa a língua pela boca, pega o celular e faz uma ligação:
- Não vai haver mais casamento. Não disse que conseguia?


Do outro lado, a voz feminina grita eufórica :

- Juraaaaaaaaaa?????? Você agora é só meu? Só meu?
- Só seu. Mas você precisa me responder uma coisa. Uma coisinha só.
- O que você quiser, meu amor!
- Você goza ou finge que goza quando estamos transando? Não mente!

24 de janeiro de 2010

SURPRESA DE ESPOSA


Três da madrugada. Subiu as escadas cambaleando. O hálito de cerveja o incomodava. O estômago apertava. A cabeça girava. Antes de entrar em casa, pegou uma bala de hortelã e colocou na boca. Procurou a chave no bolso da calça. Nada. Procurou no bolso do paletó. Ouviu um barulhinho.Finalmente. Pegou e rodou a chave na fechadura, devagar, para não fazer barulho.

O Poodle da vizinha latiu. Deu um pulo para trás. Prometera a Elvira nunca mais chegar tarde. Ela o ameaçara. Terminaria o casamento se acontecesse de novo. Não queria trair a esposa. Mas não resistiu. Tinha a cabeça mole demais. As mulheres eram seu ponto fraco. Elas o provocavam. Tinha imã. Atraía mulheres de todos os tipos e idade. A loira era linda. Um fenômeno. Acenou com o olhar enquanto atravessavam a Avenida Rio Branco. Os bicos dos seios endurecidos na blusa transparente lhe deram vertigem. Quase morre atropelado. Ela o puxou para a calçada antes que o ônibus o deixasse no asfalto . Estavam embriagados de tesão.

Fez o convite. Beberam e gargalharam como velhos conhecidos. Terminaram a noite num motel ordinário no Centro da Cidade. Quase três da manhã lembrou-se de Elvira. O coração acelerou. Deixou a loira perto de casa. Fingiu que anotou o telefone no celular. O aparelho estava desligado.

Abriu a porta. Colocou os pés na sala com o coração acelerado. Deu um pulo. A luz do abajur clareou o rosto de Elvira. A esposa estava com os olhos trepidando de ódio. Um sorriso de mulher mofada na boca pequena. A cadeira de balanço rangia. Nas mãos, ela segurava uma arma. Lambia os beiços. Passional. Desgovernada. Num gesto de desespero, tentou desarmá-la. Só que, enquanto ele saía com as outras, ela treinava pontaria. Um tiro no coração. Sem barulho . Eficaz.

Com pose de vilã de filme de bang-bang, saiu da cadeira, chutou o corpo com cara de nojo, cuspiu no rosto do morto, colocou a arma dentro da mala, trancou a casa e desceu as escadas em silêncio. Na calçada, um Monza 89 esperava-a com os faróis ligados. Na direção, uma mulher com o cabelo pintado de duas cores fazia sinal . Entrou no carro. Olharam-se cheias de cumplicidade. A motorista partiu apressada. Elvira respirou aliviada. Missão cumprida.